As crises do nosso descontentamento

Em Opinião

Talvez não haja retórica tão permanente na sociedade portuguesa como a que envolve a palavra crise. Agora não se fala noutra coisa. Ninguém lhe escapa. Nem o Presidente da República! Descontando a questão dos desequilíbrios financeiros, que vem do tempo do D. Afonso Henriques e está sempre em cima da mesa, há temas cíclicos que regressam à espuma da actualidade ou se reinventam para animar a sensaboria da política.

Marcelo falou na crise da direita e foi como se o oráculo do templo decifrasse uma novidade que, afinal, todos sabiam já, que a direita, às vezes, arrasta a deplorável situação de cadáver adiado. Depois, veio a crise dos partidos, a crise do regime, a crise da democracia, a crise da corrupção, a crise das ideias, a crise das instituições, a crise dos políticos, a crise do Berardo, a crise do Banco de Portugal, a crise da moral e dos valores.

Há quem vá mais longe e faça desaguar tudo no rio tumultuoso da crise da Europa. Outros encolhem os ombros ao cepticismo gerado por tanta crise e são peremptórios na avaliação: Enquanto olhava assim para a emergência dos noticiários (e, já agora, para o negativista discurso do senhor João Miguel Tavares, entronizado como presidente das Comemorações do 10 de Junho!) pensava no tempo longo da crise na história da sociedade portuguesa.

Também eu já entrei nessa retórica, em comentário avulso. Fui buscar um texto publicado há mais de dez anos, depois inserido no I Volume de Crónica do País Relativo. Portugal, Minha Questão. É sobre a crise e mergulha na lembrança de um escritor fabuloso, José Rodrigues Miguéis, romancista, contista, cronista, autor de livros tão importantes como Páscoa Feliz, Milagre Segundo Salomé, A Escola do Paraíso ou Gente de Terceira Classe.

Claro que José Rodrigues Miguéis está no panteão do esquecimento, onde jaze a maioria dos grandes criadores portugueses. Então, é essa uma razão suplementar para voltar ao meu texto de 2015. É assim:

“A crise, eis uma palavra sempre na boca dos portugueses. Nas releituras ocasionais (há autores que impõem regressos) encontramos abundantemente esse fenómeno idiossincrático. José Rodrigues Migueis (grande escritor esquecido) escreve sobre a realidade do primeiro quartel do século XX, em O Milagre Segundo Salomé: “Em tudo o mais divergente, a Nação pôs-se de acordo num ponto: estamos em crise. Crise profunda, orgânica, ancestral. Cada qual dá-lhe porém um conteúdo específico diverso: para uns ela é apenas política, para outros económica e financeira, ou meramente pedagógica e moral. Há mesmo quem pense que a Nação nasceu em crise, ou de uma crise: aleijada. Segundo este, ela vem das Navegações & Conquistas; para aquele, da Aliança Inglesa. Atribuem-na uns ao Absolutismo, aos jesuítas e à Inquisição, outros responsabilizam dela Pombal, o Liberalismo, a Maçonaria e o Bolchevismo. Ou até a sífilis endémica. Diz um que as colónias são o cancro da grei, outros proclamam que elas são a reserva do nosso futuro. (…) Um delírio de reforma galvaniza a alma nacional, ou que passa por sê-lo. Tudo caminha mal: a moeda, as colheitas, os impostos, a chuva, a seca, o parlamentarismo, a balança comercial, o ensino, os tabacos, as pragas de gafanhotos (…). (…) Em todo o caso, para sair da crise, bastará uma destas simples soluções: equilibrar o Orçamento, derrubar o ministério, ou refazer a História. Já ninguém atura este governo. A ideia de que ele está no poleiro há mais de seis meses não nos deixa dormir em paz”. Premonitório Rodrigues Miguéis no capítulo “Abaixo o Ministério”.

Fernando Paulouro Neves

(jornalista e escritor, autor do blogue Notícias do Bloqueio)

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