Do jovem apanhador de tomate ao Arútam de António

Em Opinião

Gosto de ir ver o Tejo, o lugar onde enquanto jovem tomava banho depois de uma jornada diária na apanha de tomate à mão. Domingo foi dia de treino de corrida, treino que se preze vai às Caneiras!

Na margem fiquei à conversa com moradores, os temas saltaram “sem pedido de autorização”: assoreamento e poluição. Contaram-me da dificuldade dos barcos, do peixe morto pelos venenos industriais e agrícolas, do desgosto de ver o rio cada vez mais exaurido. Chamaram-me a atenção para as ilhas que “nascem como cogumelos”, ativadas pela falta de água e uma enorme carga orgânica e química.

Recordei-me dos meus tempos de jovem apanhador de tomate à caixa… De quando cortava um tomate em quatro e com um pouco de sal era logo comido. Curioso, o tomate e o sal são hoje elementos essenciais nos abastecimentos dos trails.

O treino recomeçou. As pernas e o cérebro estimularam-se… Naquele meu tempo de jovem apanhador de tomate [e de grilos que punha num buraco] tomava banho no rio sem conquistar doenças na pele… Naquele meu tempo já a população se voltava mais para a agricultura e as searas. Para as colheitas vinham, por vezes, ranchos de trabalhadores e neles as jovens moças. Ainda apanhei esses bailaricos, onde se procurava a “sorte”… E os slows! Recordações… As pernas correm, a imaginação esvoaça no passado…

Chego a casa e procuro “O velho que lia romances de amor”, de Luís Sepúlveda. É um livro adorável! António Proaño não é só o velho que se refugia na leitura dos romances, é o homem que se constrói no respeito pelo seu semelhante – em particular pelos índios Shuar. António aprende a amar e compreender a natureza, as matas, os rios, os animais, a Amazónia…

Gostava de visitar a floresta equatoriana e falar com os Shuar. Talvez eles me contassem segredos da sua imensa coragem que impediu incas e castelhanos de os colonizarem. Talvez me falassem do Arútam de António não fosse ele espírito e um nome feito homem.

Tu António Proaño, tu que fizeste Sepúlveda homenagear o grande Chico Mendes, vem junto de nós… Tal como a Amazónia, também nós precisamos de salvar o Tejo!

Vítor Franco

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