Deixa-te de medos, pá!

Em Opinião

Numa formação em segurança de atividades em montanha pedi um conselho ao nosso formador sobre uma viagem começando de barco na Santarém amazónica, subir o rio até Iquitos no Perú, fazer a Amazónia peruana e depois fazer [de bicicleta] Bolívia, Chile, Argentina até Ushuaia, Terra do Fogo, Patagónia. Adoraria!

Meu professor, universitário e especialista em escalada, um brasileiro de Porto Alegre, disse que eu seria maluco. Retorqui que de facto dificilmente teria dinheiro e saúde para viagem tão longa mas preparar-me-ia fisicamente. Ele respondeu-me que o problema da segurança não era a técnica, mas a humana nomeadamente o roubo ou até assassinato.

Já não tive “coragem” de lhe contar como seria “épico” tomar o rio Ucayali [afluente do Amazonas] e deste o Urubamba, depois o Camisea chegando o mais próximo possível do povo nativo Nanti. De um dos aeródromos “perto” haveria de conseguir chegar a Cusco, daí até Machu Pichu era um “saltinho” [eh eh eh].

O povo Nanti é um povo nativo a quem chamavam os Kugapakori, os violentos ou agressivos, na língua Machiguenga de quem os Nanti são um subgrupo. Na verdade os Nanti, povo seminómada, apenas defendem a sua floresta; ela é ao mesmo tempo a sua casa e o seu alimento, o seu passado (…) pode não ser o seu futuro…

“Nós somos” é o significado de Nanti, na sua própria língua. “Nós somos” era o que devia significar ser humano em todas as línguas. Nós somos todos filhos de imigrantes, nós somos todos brancos, pretos, gente, pessoas… É… Nós somos, simplesmente pessoas!

O meu professor de montanhismo achava que todos estávamos a ficar Kugapakori, em particular os brasileiros! Mas o mundo é muito melhor do que a FoxCrime ou a CMTV indicam. A perceção televisiva é que cada desconhecido é um perigo, na verdade é uma oportunidade de convívio e amizade; se há coisas que as minhas cicloviagens, a solo, me ensinaram foi isso mesmo!

O medo tornou-se uma construção mental / cultural propositada, ou seja ideológica. Se o medo predominar, as ditaduras não precisarão de polícias políticas nem prisões, os patrões abusadores não terão sindicalistas, os escritores só farão textos banais, as lésbicas e os gays não sairão do armário, as mulheres vítimas de violência de género serão submissas até à morte…

A cultura dominante, a capitalista, ensina-nos o medo como premissa válida e inquestionável – em cada esquina um inimigo! Todos contra todos.

Na tranquilidade do seu domínio, os de cima pretendem-nos aves acéfalas em gaiolas imaginárias; assim nunca seremos jovens de Hong Kong e muito menos uma Fénix renascida!

Vítor Franco

(Imagem de Cris Mitsue, créditos: https://brazilcartoon.com/crismitsue/work/3922?language=pt_BR)

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