Quais são as prioridades do Partido Socialista de Abrantes?

Em Opinião

No intuito de descongestionar o Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria, cuja competência territorial abrange o Município de Abrantes, o Governo equaciona criar uma delegação deste órgão de soberania fora da histórica cidade em que, fraternalmente, os rios Lis e Lena se abraçam. De acordo com o que está em análise, pretende-se que essa jurisdição desconcentrada assente arraiais num dos concelhos do Distrito de Santarém e/ou da Sub-Região do Médio Tejo.

Ora, dadas as inequívocas vantagens resultantes desse acolhimento, por exemplo, Torres Novas e Tomar já manifestaram um oficial interesse em albergar o aludido fórum, o que se compreende sem dificuldades, porque, afinal de contas, os autarcas foram eleitos para – dentro dos limites do bom senso – lutarem pelas conveniências dos munícipes e/ou fregueses que representam. Ou assim deveria ser…

Se o leitor estiver a questionar-se acerca do conteúdo que subjaz à frase antecedente, terminada nesses três enfileirados e misteriosos pontinhos que denominamos de reticências, eu passo a justificar: sabendo dos avanços das referidas autarquias, o PSD de Abrantes, através do seu vereador, instou o Presidente da Câmara a, junto do executivo que comanda os destinos de Portugal, evidenciar iguais vontade e disponibilidade. Curiosamente, foi presenteado com uma resposta “carneixe” – que não é carne, nem é peixe! –, afiançando que existe um desejo abrantino de receber a delegação do mencionado tribunal, mas alegando que esses intentos camarários carecerem de ser harmonizados com os demais municípios da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT).

Quando me inteirei do que fora afirmado por Manuel Valamatos, juro-vos, fiquei perplexo! O Município de Abrantes, exibindo uma desproporcionada e bacoca solidariedade, tenciona congraçar posições com os seus vizinhos, enquanto estes dão ao pedal e aceleram para ganharem a corrida.

Pergunta-se: Torres Novas e Tomar, que também são membros da CIMT, conciliaram as suas deliberações com Abrantes? Claro que não o fizeram!

Antes de que me acusem de bairrismo – o que não seria totalmente despropositado, porquanto, em criança, vivi no Bairro da UFA –, garanto-vos de que este crítico artigo não floresce de um irracional apego aos interesses de Abrantes. Defendo que a concretização de medidas públicas se deve reger por critérios de competência, eficácia e eficiência, temperados por uns pozinhos de emotividade. Por outras palavras, optarei sempre pelas soluções que melhor respondem às necessidades das pessoas; porém, se não for notório ou demonstrável que as ambições da minha terra são mais ou menos prejudiciais para o País, como um todo, eu conferir-lhes-ei preferência.

Dito isto, depois do pasmo e assombro originados da veemente discordância com as declarações do recém-indigitado alcaide, surgiu a inquisitiva reflexão: será que as prioridades da Concelhia de Abrantes do Partido Socialista estão bem organizadas? Duvido!

Reparem: antes de Maria do Céu Albuquerque trair aqueles que nela votaram, apanhando a camioneta dirigida à Rua Professor Gomes Teixeira, em Lisboa, reemergiu a discussão regional sobre a localização da nova ponte sobre o Tejo, sendo que, desde os anos 90, se jura a sua construção entre Abrançalha e Tramagal, no Concelho de Abrantes.

Na altura desse renascido debate, numa intervenção na respectiva Assembleia Municipal, escudei que Abrantes não teria de ser, obrigatoriamente, a receptora dessa importantíssima infra-estrutura. No entanto, até àquele momento, ninguém me provara que não era a escolha certa, muito pelo contrário. Em vista disso, apenas poderia exigir que se cumprisse a madura promessa.

A atitude de Maria do Céu Albuquerque, por seu turno, foi exactamente a mesma de Manuel Valamatos: procurar uma amorosa concórdia de opiniões entre os concelhos do Médio Tejo. Como seria esperar, levou uma bofetada política do Senhor Presidente da Câmara de Constância que não se fez de sonso e logo asseverou que a sua autarquia era a ideal para hospedar a obra!

Voltando um pouco atrás, não me engasgo ao proclamar que Maria do Céu Albuquerque enganou os seus eleitores. Durante a campanha de 2017, a actual Secretária de Estado do Desenvolvimento Regional assegurou devoção e dedicação absolutas ao cargo para o qual concorria; não obstante, numa núpera entrevista daquele que lhe herdou o posto, este admite que já se ponderava a hipótese de uma partida antecipada, dado que a lei não autorizava uma recandidatura.

Retornando ao assunto principal deste texto, e sopesando os factos, só posso concluir que o Partido Socialista no Concelho de Abrantes, institucionalmente, subordina as suas opções estratégicas às da Comunidade Intermunicipal, orientando os seus eleitos a tomarem decisões que respeitem essa sujeição. E porquê? Nunca nos explicaram, mas eu fico com a sensação de que as razões são trampolineiras e “trampolinescas”: permitem saltos políticos…

João Salvador Fernandes

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