Galinha dos ovos de ouro

Em Opinião

Todas as decisões, pessoas e locais têm aspectos positivos e aspectos negativos.

Santarém não é excepção.

Curiosamente, aquilo que considero mais positivo na cidade scalabitana (o património) é a causa de um dos aspectos mais negativos que marcam a capital de distrito (o desaproveitamento do potencial).

Santarém tem a sorte que muitos outros locais desejavam ter. Nos monumentos, na localização e acessos, na gastronomia.

Quantas cidades podem dizer que têm, simultaneamente:
– Um templo romano (semelhante ao de Évora, mas sem as colunas, tendo restado a base);
– A maior necrópole islâmica da Península Ibérica;
– Dezenas de igrejas de vários períodos históricos;
– Alcáçova, muralhas medievais e as Portas do Sol com vista para a Lezíria;
– Localização conhecida de uma mouraria e uma judiaria;
– Fonte e janela manuelinas; 
– Residência da corte portuguesa e de outras figuras marcantes, algumas delas nascidas ou sepultadas em Santarém (São Frei Gil; D. Fernando, o Infante Santo; Manuel de Sousa Coutinho, mais conhecido como Frei Luís de Sousa; Pedro Álvares Cabral; Passos Manuel; Sá da Bandeira; Bernardo Santareno; Mário Viegas; entre muitos outros);
– (ex-)Escola Prática de Cavalaria, de onde partiu a coluna militar de Salgueiro Maia no dia 25 de Abril de 1974;
– Zona ribeirinha e contacto privilegiado com o Tejo e o campo;
– Boa gastronomia;
– Com estação de comboio e com entrada/saída para a auto-estrada A1.


A lista poderia ser ainda mais extensa. Mas quando mudamos a perspectiva para os aspectos negativos, eis que surge a pergunta: quantos, de facto, conhecem este património? Quantos dos que residem na cidade, no concelho e no distrito o conhecem? Quantos de outros distritos o conhecem (Lisboa fica a 50min)?

Todo este processo deixa-nos a pensar e a questionar.

Porque é que Santarém não se consegue projectar a nível regional e nacional?

Se é certo que Santarém tem a sorte que muitos outros locais desejavam ter, também o é que Santarém tem o azar que estamos fartos de ter: ausência de uma política planeada e integrada. Uma política que atraia novos residentes e visitantes para uma cidade que tem condições para ser um exemplo.


Não é um fenómeno só de agora. Afinal foi em Santarém que se destruiu um dos primeiros templos dominicanos do país para construir uma Praça de Touros!

A transformação da energia potencial da cidade em energia real necessita urgentemente de  comunicação, que é uma das falhas do actual Executivo PSD. Uma comunicação assente numa imagem atractiva e profissional (haverá designers nos serviços?) e numa divulgação profissional. Uma comunicação de que o património importa. Veja-se o exemplo de Serpa (Beja), com a sua imagem de marca da “Serpinia”, muito bem aplicada pela Câmara Municipal.


Claro que nem sempre há meios para as grandes recuperações patrimoniais. Não se pede a Santarém que se transforme em Évora de um momento para o outro, até porque há factores diferentes (entre os quais os geográficos).


Mas as grandes coisas são somas de pequenas coisas e a criatividade e simplicidade podem muitas vezes ter resultados efectivos. Veja-se o exemplo da Mouraria de Moura (Beja). São 3 ruas de uma das mourarias mais antigas de Portugal. Recuperadas e mantidas com a ajuda da Câmara Municipal. Simples, mas muito icónico: o casario branco e as ruas em flor. Só vendo!


Haverá sempre o problema do vandalismo. E é por isso que a política necessária para mudar Santarém terá de ser integrada e unitária. A política que mexa com Santarém terá de envolver as forças locais e associativas e os seus habitantes. Terá de ser um empreendimento nosso: de nós, para nós e para os outros.


No conto da galinha dos ovos de ouro, o dono matou-a por ambição e ganância de ter mais e mais ouro. Não matem a nossa galinha de ouro, mas não a deixem morrer de velha ou à fome…


André Arraia Gomes

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