Adeus Carlos Carranca

Em Opinião

“Há alturas em que as palavras não fluem e em que também qualquer coisa que digamos já pouco adianta… Hoje é dia de o sentir…

A notícia chegou: o Carlos Carranca já cá não está… O Poeta, o Professor, o Homem, o Irmão, o Bom Amigo…

Não vamos dizer que não se esperava, ele próprio o sabia e escrevia em função disso.

Acompanhei a doença dele à distância… sabendo quando as melhoras vinham, ou quando as piores alturas chegavam, de quando em quando pela Rosa, a incansável Rosinha, e mais frequentemente pelo Facebook. Achei que nesta fase da vida dele gostaria de ter próximo aquela família e amigos bem ligados e só esses. Que eu e outros bem amigos também, mas de quem ele não sentiria vivências tão próximas, seríamos mais ruído do que apoio e satisfação neste período difícil… Ficar-me-á a dúvida para sempre sobre se agi bem ou não…

Adeus Carranca! Fica bem! Até uma próxima!…”

Foram estas as palavras sentidas que me saíram e que publiquei no Facebook no passado dia 29, dia da morte de Carlos Alberto Carranca de Oliveira e Sousa.

Carlos Carranca, como era conhecido, foi (ou é – gosto de falar no presente relativamente a alguns dos que já não estão por aqui connosco, porque há gente que não morre) o professor (querido dos seus alunos que participaram em peso na sua despedida), o poeta, o cantor de Coimbra, o amigo de Miguel Torga, de Zeca Afonso e de tantos outros…

Mas, acima de tudo, foi um Homem de “mão cheia”. Onde estava enchia o ambiente. Um vozeirão, uma presença, uma simpatia, um saber estar, que não passava despercebido. Nunca lho disse, se calhar nunca ninguém lho disse, mas ele sabia-o certamente: nunca conheci ninguém que equilibrasse tão na perfeição algum egocentrismo com uma tremenda simplicidade e afabilidade!…

Nos últimos anos, esteve pelo menos 3 vezes em Santarém em apresentações de livros e homenagens organizadas por mim e pelo Carlos Seixas Pires com a colaboração e apoio do Círculo Cultural Scalabitano. É que o seu pai, Carlos de Oliveira e Sousa, foi diretor do Círculo nos anos 50, altura em que viveu em Santarém e foi gerente da Oliva.

A última vez que Carlos Carranca por aqui esteve foi em 2016, no dia dos seus anos, 9 de novembro, altura em que se sentia já muito cansado. Poucos dias depois deu entrada no Hospital de Cascais e foi-lhe detetada leucemia em estado avançado.

Conheci-o na minha primeira experiência política, de que ambos saímos defraudados, tal como a outros, que ficaram grandes amigos, como Edmundo Pedro, Catalina Pestana, Gentil Martins, Luís Osório, entre mais…

Quando chegar o dia de assombrar a casa dos versos que deixei por escrever, todos dirão algo de belo e inconsistente.” – são os primeiros versos do que, creio, foi o último poema que escreveu dois ou 3 dias antes de entrar em coma induzido no Instituto Português de Oncologia…

Tinha de lhe fazer aqui esta pequena homenagem!

Francisco Mendes

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