Consequências do BREXIT para as empresas portuguesas em análise na NERSANT

Em Empresas

A NERSANT – Associação Empresarial da Região de Santarém recebeu a AICEP na sua sede, em Torres Novas, para a realização de um seminário sobre as oportunidades e desafios do BREXIT para as PME. Para além de alertar as empresas para os desafios desta rutura, a sessão deu a conhecer algumas recomendações que podem ajudar a transformar o processo numa oportunidade. O Embaixador de Portugal no Reino Unido e Coordenador do Ministério dos Negócios Estrangeiros para o BREXIT, João Vallera, marcou presença na sessão.

A saída do Reino Unido da União Europeia – processo conhecido como BREXIT – deverá acontecer até 31 de outubro, o que trará inevitáveis consequências para a economia e empresas portuguesas. Foi com o objetivo de elucidar as empresas do Ribatejo sobre este assunto que a AICEP se deslocou a Torres Novas, tendo realizado com a parceria da NERSANT e no edifício sede da associação, um seminário sobre o tema.

Domingos Chambel, Vice-Presidente da Direção da NERSANT, fez o acolhimento aos mais de 30 empresários presentes na sessão de esclarecimentos, tendo referido na ocasião que “é uma honra ter acesso a esta informação, que nos permite não sermos apanhados de surpresa face a esta realidade”. “Trazemos aqui aquilo que podem ser os handicaps que esta situação nos pode aportar, mas também as oportunidades de negócio que daí podem surgir”, advertiu ainda o Vice-Presidente da Direção da NERSANT.

João Vallera, Embaixador de Portugal no Reino Unido e Coordenador do Ministério dos Negócios Estrangeiros para o BREXIT, interveio logo de seguida, tendo dado a conhecer às empresas presentes o atual enquadramento da rutura, com enfoque na leitura política e institucional da mesma.

Completou a informação facultada pelo Embaixador, Rui Boavista Marques, Delegado da AICEP de Portugal em Londres, que se centrou no enquadramento económico, com indicação das oportunidades e desafios para as PME. Na sua intervenção, referiu a “relação económica longa e intensa entre Portugal e o Reino Unido” e alguns sinais contraditórios desta economia. “Nos últimos 3 anos, o Reino Unido passou da maior economia do G7, para o último lugar deste ranking”, mas, por outro lado, “o desemprego está historicamente baixo e há até setores de atividade que aceleraram o crescimento neste período”, fez saber.

O especialista avançou, ainda, que, pese embora Portugal não esteja no grupo de países mais afetados pelo BREXIT, é necessário cautela e deixou algumas recomendações: “as empresas devem antecipar-se. Há muita informação preparada nos links dos portais da União Europeia, inclusivamente por setores de atividade, e até pelo Governo inglês. A própria AICEP está a preparar cursos de e-learning sobre estas questões”, começou por dizer, acrescentando que, “as empresas devem repensar o seus business plan e equacionar a exportação para outros mercados, bem como estar atentas a acordos comerciais do Reino Unido com outros países e tirar o melhor proveito destes.” Rui Boavista Marques mencionou ainda que “o Reino Unido é o país com maior cotação de e-commerce do mundo”, pelo que os negócios online são claramente uma oportunidade.

“Pela nossa relação histórica, temos consciência de que as quotas de mercado portuguesas são privilegiadas, mas neste cenário de incerteza, é necessário acarinhar as relações comerciais que já se têm”, advertiu, acrescentando que é imperativo “transformar o BREXIT numa oportunidade”. Terminou com a informação de que existe uma linha de crédito com dotação de 50 milhões para apoiar as empresas com trocas comerciais com o Reino Unido.

Na sessão de esclarecimentos, bastante completa, falou também João Gomes, da Alfândega de Peniche, que alertou as empresas para “a reposição, partir da saída do Reino Unido da UE, das formalidades aduaneiras, mesmo que possa haver acordo comercial” e indicou que na região do Ribatejo, as empresas têm acesso a dois postos aduaneiros, Riachos e Entroncamento.

Vítor Escária, Professor do ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, apresentou de seguida o estudo da CIP sobre as consequências do BREXIT, e deixou claras conclusões e recomendações do documento: “Relativamente às conclusões, o estudo permitiu-nos saber, entre outras, que o BREXIT é um processo assimétrico e longo e quem sofre mais com ele é a própria economia britânica. Por outro lado, que esta rutura com a UE tem impactes transversais na economia portuguesa (bens e serviços, comércio e investimento internacional, remessas dos emigrantes turismo e imobiliário…)”. Recomenda-se, portanto, “proatividade na valorização do Reino Unido como parceiro económico, ou seja, Portugal deve procurar ser mais atrativo e proativo na apresentação da matriz anglo-saxónica, através da adoção de mecanismos de regulamentação para aumentar a confiança na iniciativa empresarial”. Portugal deve, ainda, “diversificar o seu relacionamento económico, encontrando mercados alternativos”, bem como estar atendo “às assimetrias internas dos impactes do BREXIT em termos de regiões e atividades económicas”.

Da Direção Geral da Atividades Económicas (DGAE) do Ministério da Economia, interveio Sara Santos, com uma apresentação sobre o tema “Reino Unido: pauta aduaneira no cenário de país terceiro”.

TrimNW, de Santarém, integrou painel de debate sobre impactes setoriais do BREXIT

A parte final do seminário foi composta por um debate sobre os impactes setoriais do BREXIT. O mesmo contou com a moderação de Patrícia Gonçalves, Diretora de Economia e Relações Internacionais da CIP e com a intervenção de Maria Alice Rodrigues, Diretora de Serviços do Comércio Internacional da Direção Geral de Atividades Económicas do Ministério da Economia e de Rui Lopes, da TrimNW, empresa de Santarém posicionada no ramo automóvel.

Na sua intervenção, Rui Lopes, o responsável pela empresa, afirmou que o mercado inglês é o segundo no que à exportação diz respeito, e que o volume de exportação para este mercado está até a crescer. “Em 2018 exportámos 13% para o mercado inglês, em 2019 vai crescer para 17% e esperamos que cresça para 23% em 2020”. “Não consideramos que o BREXIT seja, para nós, uma vulnerabilidade, uma vez que não temos concorrência no mercado inglês. De igual modo, também não prevemos que os nossos clientes ingleses deixem de nos comprar para ir comprar a França, por exemplo”, fez saber o empresário, que afirmou ainda que, “de momento, o que está a acontecer, é até um aumento de encomendas, uma vez que vai haver uma barreira a 31 de outubro”.

O empresário não nega, no entanto, que o processo alfandegário pode ser uma vulnerabilidade, uma vez que o tempo de expedição vai necessariamente aumentar. “Não conseguiremos colocar o nosso produto no mercado inglês à velocidade que hoje fazemos”, referiu Rui Lopes, que, no entanto, se mostra destemido. “A alfândega não é desconhecida para nós, é um procedimento que tratamos com outros países com os quais trabalhamos”, disse, acrescentado que “os negócios sempre se fizeram e vão continuar a fazer-se”.

Questionado quanto ao facto de ter procurado mercados alternativos ao Reino Unido, o empresário afirmou “ter outros mercados com quem pretendem trabalhar, nomeadamente México e Rússia, mas que a abordagem não deriva do BREXIT”.

Domingos Chambel, Vice-Presidente da Direção da NERSANT, deixou a seguinte preocupação: “O Estado deve preparar-se para o BREXIT mais do que os empresários, no sentido de desburocratizar o desalfandegamento de produtos. Não haverá, após 31 de outubro, recursos humanos suficientes nas alfândegas para que os processos possam ser feitos de forma célere”.

Após participação da plateia no debate e troca de ideias entre os presentes, encerrou o seminário Pedro Patrício, Diretor da Direção da Rede Externa e Institucionais da AICEP.

De referir que este foi um evento organizado pela AICEP com a colaboração da CIP – Confederação Empresarial de Portugal e da Direção Geral da Atividades Económicas do Ministério da Economia. Contou ainda com a parceria da NERSANT para a realização da sessão na região.

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