Tancos

Em Opinião

O consagrado escritor Mark Twain aconselhava que na dúvida disséssemos sempre a verdade. O professor de direito na Universidade Católica do Porto, Azeredo Lopes, é exemplo de nunca ter lido o versátil escritor, pois se o tivesse feito não entraria da novela picaresca de Tancos, na qual, o então Ministro da Defesa ante a avalanche de dúvidas preferiu refugiar-se debaixo do manto da fantasia do Demónio tentador, o qual sendo tendeiro tanto tapa como destapa. E passados dois anos após o ocorrido o Diabo destapou, em plena campanha eleitoral, de modo a obrigar António Costa a requebros e contorções ao som da mazurca socialista e a defender teses de conspiração e vingança.

Nestas cousas da política tudo é possível, não ouso acreditar na culpabilidade do Ministério Público, porém como dizia Miguel de Cervantes: «no creo en brujas, mas que las ay, ay», por isso mesmo vou deixar avolumarem-se as dúvidas a sucederem-se nos episódios seguintes desta novela pensada por um rufião e sequazes especialistas em viverem do alheio, à qual só abandonou a aventura o célebre Sr. Ferramentas figurante duplo no guião inicial.

Os militares envolvidos portaram-se do mesmo modo que se comportam as mulheres e os homens quando sabem serem alvos de adultério, num cristalino rompante ciumeiro cometeram erros de despeito, deixaram pistas a evidenciarem amadorismo, meia bola e força, entre mortos e feridos alguém há-de escapar, expressões integradoras do jargão militar. Do lado militar avulta a timorata e rasteira do coronel director do PJM, e o dúbio Vasco Brazão – o do papagaio mor do reino – que irá entrar nos anais da espionagem como exemplo de vivaz estupidez.

O povo vai ouvindo e lendo as peripécias do roubo das armas em Tancos entre a risota e menear de cabeça em sinal negativo, nem os governantes, nem os militares ficam bem no retrato, a oposição desempenha o seu papel, estivesse o PS nas mesmas circunstâncias e o zurzidor Augusto Santos Silva fustigaria sem dó, nem piedade, os adversários, tivessem os rapazes da mãozinha assumido o erro da escolha de Azeredo Lopes e os danos seriam menores, até o beato Marques Mendes se pouparia nas críticas ao governo.

O Presidente da República vive uma ira mansa, não pode resfolegar sobre um processo tanto acicatado por ele mesmo ao continuamente exigir investigações, a natureza humana é traiçoeira, quando devia obter a generalidade dos aplausos, línguas viperinas soltam salpicos insinuadores porque há sempre alguém disposta a acolhe-los e a lembrarem o seu passado de comentador. Esta ira mansa vai provocar desgaste no relacionamento com o governo e distância com Rui Rios e a Senhora Cristas. Ninguém fica a ganhar.

Astuciosamente a Senhora Catarina foge da comédia Tancos, percebe-se, anda à cata de respeitabilidade social-democrata, anda numa de falinhas mansas, após o dia 6 de Outubro a veremos no papel de Maria da Fonte de corneta na mão a tocar a reunir. A canção entoa; a mim não me enganas tu, a Panela ao lume e o arroz está cru!

Armando Fernandes

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