Abstenção, votos, deputados, contas e partidos

Em Opinião

Em cada 1.000 pessoas que podem e devem votar, 455 não o terem feito é obra! Como é que tanta gente se alheia de um ato que em muito vai determinar como será a sua própria vida nos próximos 4 anos, com óbvias influências em muitos dos seguintes também?

A culpa não se pode atribuir só aos cidadãos amorfos. Como é possível que ainda não se tenha conseguido implementar o voto eletrónico que, para além da simplificação do ato, possibilitaria que votássemos em qualquer local em que nos encontrássemos? Certamente que assim mais cidadãos votariam. Mas não vou esquecer a forma como decorreu o voto antecipado, o que já foi uma boa evolução.

O que também muitas vezes não se fala é na mais ainda incompreensível desatualização dos cadernos eleitorais de que constam muitos que já morreram, incrementando falsamente os números da abstenção. E seria fácil corrigir isto…

De realçar, agora pela positiva, é o alargamento do número de partidos que passam a estar na Assembleia da República.

Mas o nosso sistema eleitoral de eleição distrital dos deputados, tem muito a melhorar para ser mais justo e lógico. Não sei se já alguma vez repararam bem na forma como este sistema funciona. Sem contar os votos brancos e nulos, que não elegem deputados, tivemos cerca de 4 900 000 votantes, o que corresponde em média a 21 200 votantes por cada deputado eleito. Mas, como os deputados são eleitos por distrito, há muitos votos que não elegem ninguém e os partidos grandes precisam em média de muito menos votantes para elegerem deputados. Por exemplo, ao PS bastaram 17 600 votos para eleger cada deputado, já o PAN necessitou de 41 700 para o efeito e o Livre quase 55 700. E o Aliança, com quase 40 000 votos, não elegeu ninguém…

Façamos umas contas de merceeiro, mas bem elucidativas usando as médias referidas. Se, por absurdo, um partido tivesse 21 100 votos em cada um dos 20 círculos eleitorais do território nacional, não teria um único deputado na Assembleia; já outro que tivesse 21 200 votos também em cada um dos círculos teria 20 deputados no hemiciclo. Caricato, não é?

Falar agora de Santarém só para referir que, mais uma vez, tivemos no distrito votações muito semelhantes às do território nacional, no que aos maiores partidos se refere, isto com uma ligeira maior votação no PS.

Outro reparo. A eleição de um deputado do Chega e este partido passar a ser a 7.ª força política num universo de 21 partidos, ainda que só com 1,3% dos votos, preocupa-me por poder ser um indício de nos estarmos a aproximar de uma certa Europa nessa onda da moda de partidos da extrema direita. Agora vai ter subvenção e assim mais meios de promoção… Felizmente o PNR continua com votação quase residual.

Também não me agradam alguns exageros do PAN, com algum cariz fundamentalista e radical, apesar de, no geral, simpatizar com esta força política em ascensão e com as causas que defende. Parece-me conveniente haver mais tolerância. Alguns males resolvem-se melhor pela ordem natural das coisas do que por imposição…

Parece positivo que o Partido Socialista tenha ganhado sem maioria absoluta, mas que tenha alargadas possibilidades de acordos, sejam eles de Governo (pouco provável), tipo “geringonça” ou pontuais.

Francisco Mendes

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