Saudades do Rogério

Em Opinião

Morreu ontem, aos 72 anos, o jornalista Rogério Rodrigues. Conheci poucos que exercessem com tanta paixão a tarefa de seleccionar a realidade, que é o verdadeiro desafio do jornalismo, ou que vivessem de forma tão intensa a aventura de ser repórter do instante, como Camus gostava de dizer, quando os jornais eram o seu mundo imediato.
O Rogério, que punha sempre as devidas distâncias em relação aos acontecimentos, utilizava o distanciamento como uma técnica muito particular de observar as pessoas e as coisas. Era isso, penso eu, que fazia dele um grande repórter.  Há textos seus exemplares que jazem adormecidos nos arquivos do “Diário de Lisboa”, de “O Jornal”, de “A Capital”.  E, também, do “Jornal do Fundão”, onde ele vinha solidariamente,  sempre que era preciso, naquelas urgências que o meu tio, António Paulouro, era capaz de inventar para inquietar ou desassossegar a anquilose do tédio português.
Foi ele que fez a crónica de Teresa Torga, a mulher nua que, depois do 25 de Abril, dançava nua no centro do cruzamento das Avenidas Miguel Bombarda e 5 de Outubro, que depois inspirou o Zeca Afonso para um canção do álbum “Com estas tamanquinhas”. Ele pensava que esses detalhes do quotidiano eram grande  alimento do jornalismo. E eram.
Gostava de trazer aqui um caso que já ninguém lembra como seu traço biográfico, e no entanto foi um enorme serviço que o Rogério Rodrigues prestou à Democracia e à República. Vivia-se a campanha eleitoral de 1980, que opunha Eanes a Soares Carneiro, nas eleições para a Presidência da República. Ele fazia a cobertura, para o “DL”, da campanha de Soares Carneiro, que tinha o apoio da AD. E, já iam a meio os comícios, tudo muito nebuloso e incerto, quando o Rogério publicou uma matéria que tinha tanto de corajosa, como de explosiva. Descobrira que ele fora responsável pelo campo de S. Nicolau, onde a ditadura enclausurava os patriotas angolanos que lutavam pela libertação. Foi uma bomba, e, à distância do tempo, penso que essa narrativa pode ter ajudado a mudar o curso dos acontecimentos.
Eu chamava-lhe politólogo, pelas suas constantes análises ao PCP, e, no Fundão, foram muitas as conversas à volta da mesa, verdadeiros debates entre ele e o Zé Paulo Gascão, molhados com aguardente velhíssima. Tenho uma enorme saudade das conversas com o José Cardoso Pires, onde cabiam toda a literatura e todo o mundo.
Saudades do Rogério.

Fernando Paulouro Neves

Jornalista, autor do blogue Notícias do Bloqueio

Quarta-Feira, 9 de Outubro

PS: O velório de Rogério Rodrigues realiza-se nesta sexta-feira, a partir das 18h00, na Igreja Matriz da Amadora, e o funeral decorrerá no próximo sábado, pelas 14h00, seguindo para o crematório de Barcarena.

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