A independência de Portugal também se deve aos catalães

Em Opinião

Quando em 1 de Dezembro de 1640, o secretário de Estado Miguel de Vasconcelos foi lançado pela janela do Paço Real de Lisboa e a vice-rainha de Portugal foi “guardada em recato” deu-se a declaração da restauração da independência do nosso país.

Mas esse ano regista também a morte de um segador [em português: ceifeiro] na Catalunha, daí a morte do líder do principado e posterior guerra Espanha – França. Em 26 de janeiro de 1941 a República Catalã declara-se independente; mais tarde fica sob protetorado da França. A guerra dura 30 anos. Após ter recuperado a Catalunha, Castela, já exausta, lança-se a Portugal. Após escaramuças, batalhas, golpes (…) a paz só acaba sendo assinada em 1668. Olivença continuará ocupada por Espanha. Portugal tinha ganho tempo para agrupar forças e beneficiado da revolta catalã.

A tentativa dos catalães se libertarem da opressão castelhana coincidiu com a portuguesa – por certo propositadamente. A diferença é que a rica Catalunha era prioritária e só em 1652 a França abdicou das suas “pretensões” tendo mesmo assim ficado com a chamada Catalunha do Norte.

Em 1873 um Estado Catalão é proclamado e integrado na Primeira República Espanhola. Em 1931 a República Catalã proclama-se como parte autónoma na Segunda República Espanhola.

Em janeiro de 1939 a República Catalã sucumbiria ao ataque das forças fascistas de Franco apoiadas por Hitler e Mussolini. Pouco tempo depois cairia Madrid. 500.000 mortos depois. Começaria a longa noite das trevas nos países do estado vizinho…

Estas notas, híper-resumidas são suficientemente elucidativas para se perceber que a história ibérica não é só uma “birra” entre os valentes lusitanos e aqueles de onde “não vem nem bom vento nem bom casamento”.

Há uns anos visitei o excelente Museu da História da Catalunha (http://www.mhcat.cat/), num périplo que fiz pelo país. Tal como no País Basco há uma cultura própria bastante distinta e isso é patente nesse museu.

A Catalunha é um território definido, tem uma língua própria, uma história e uma identidade próprias. Até o domínio na net não acaba em .es mas em .cat.

O que se coloca agora em questão é: porque é que o Estado Espanhol não autoriza um referendo à independência da Catalunha? Que receio têm as forças espanholistas do voto democrático e livre se até dizem ser a maioria? Porque é que no século XXI se recorre à prisão política de pessoas só porque tentaram organizar um referendo não tendo praticado qualquer ato violento?

Na minha opinião, o “espanholismo” enquanto corrente ideológica que quer ser autoritária sobre os restantes povos da Península Ibérica não perdoa a quem deseja o elementar direito a decidir. O “espanholismo” ainda hoje é expressão organizada de uma força económica, “feudal” e burguesa ao mesmo tempo, dominadora das riquezas de outros povos de que a Catalunha é exemplo.

Na Catalunha, a disputa pelo direito a decidir ter ou não a sua Nação junta sectores sociais e económicos muito vastos – e isso só é possível quando as raízes são muito fundas.

Afinal, no século XXI, a democracia ainda é tão difícil! A democracia ainda mete tanto medo que se prendem democratas!

Deixo-vos com a música e a letra do hino da Catalunha, Els Segadors, e com o apelo de Pep Guardiola:

“Apelamos à comunidade internacional para que se posicione claramente a favor da resolução deste conflito na base do diálogo e o respeito. Só há um caminho: sentarem-se a falar”.

Vítor Franco

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