A Besta Esfolada

Em Opinião

A Besta Esfolada era o título de um jornal criado pelo tristemente célebre Padre José Agostinho de Macedo, o trauliteiro Padre Lagosta, inimigo acérrimo dos liberais, instigador de repelentes acções contra tudo e todos quantos não fossem adeptos do violento sistema político vindo do anterior regime que em termos oficiais da cronologia histórica acabou com o triunfo da Revolução Francesa.

A linguagem caceteira da Besta nos dias hoje multiplicou-se nas redes sociais, sucedem-se as alarvidades, numa grotesca competição, cada qual a tentar ganhar fama para além das vinte quatro horas após a passagem da mensagem na Internet, salvo melhor opinião, tenderá a aumentar, mais refinada, todos gostam de malhar (Augusto Santos Silva) porque as consequências não existem dada a volatilidade dessas mesmas redes onde tudo se escreve sem que daí venha prejuízos ou sanções para os seus autores.

As comadres mudaram-se para as referidas redes, na esmagadora maioria não se conhecem de lado nenhum, teclar injúrias, dislates, ameaças e torpezas agrada à nossa condição de despeitados, invejosos (nunca o invejoso medrou, nem quem ao pé dele morou), prontos a encontrar argueiros nos olhos do próximo, esquecendo os cavaleiros nos nossos. Como vai ser no futuro?

O futuro é hoje, a revolução digital corre a todo o vapor, parece que vamos ter um Ministro da transição a fim de transitar sem sairmos do lugar, no entanto, a iliteracia galopa sobre o dorso da ignorância reinante no que tange à nossa história, gente do poder considera a História uma bizarria, o que interessa é o presente, porque estudar o passado não gera lucros imediatos. Ora, o futuro das nações obriga a pensarmos na forma como os nossos ancestrais foram vencendo ou torneando os obstáculos, as crises, as revoluções que surgiram ao longo dos séculos, as nações constituídas recentemente lutam no sentido de possuírem uma memória, nós por cá não concedemos ao património nas suas diversidades a atenção necessária. Os leitores acabaram de votar, porém encolheram os ombros ante a penúria e ausência de propostas de actuação na salvaguarda desses mesmos patrimónios. Onde podemos ler um documento estratégico relativamente às existências imateriais na área da linguagem? Na área das referências escondidas, das construções primitivas, das mobilidades?

Os defensores da nossa penitência e humilhação devido aos pecados cometidos pelos nossos – egrégios avós – desconhecem as causas de muitos dos referidos pecados, não sabem quão miserável foi a vivência das antigas gerações, de elas terem suportado cangas díspares, de no decurso de séculos não atingirmos a condição de patas ao léu. A ignorância era atrevida, agora, nas redes sociais é insultuosa, até infame.

Armando Fernandes

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