O corporativismo mata!

Em Opinião

Portugal ficou em choque com a notícia de que um bebé nasceu sem rosto; e esse estremecimento tornou-se ainda maior ao compreendermos que os pais da criança, vítimas de notória negligência médica por parte de um obstetra reincidente, apenas se aperceberam disso depois do parto.

Se um negregado caso desta magnitude provoca comoção e inquietude em qualquer pessoa normal, para alguém que agora começou a vogar as desconhecidas águas da parentalidade, o abalo é sobremaneira perturbador. Confesso-vos, caros leitores, que logo me assolou o pensamento: e se isto tivesse acontecido com o meu Vasquinho? E as pernas tremeram…

Não quero, no entanto, fazer deste artigo uma espécie de narração egotista de como sofri com circunstâncias alheias, porque os verdadeiros castigados são o pequeno Rodrigo e os seus progenitores. Desejo-lhes, sinceramente, força e resiliência para enfrentar os desafios que se avizinham, esperando que gozem da fortuna que até ao momento escasseou.

Concentremo-nos, por conseguinte, na principal razão de um neonato vir ao mundo com malformações graves e tal escapar ao escrutínio de diversos trabalhadores da área da saúde; concentremo-nos, também, no que permitiu a um homem inidóneo para o exercício da medicina continuar a prejudicar violentamente, mesmo após varias queixas e participações por motivos similares, a vida e as integridades física e psicológica dos seus utentes; concentremo-nos, pois, no corporativismo!

Aplicando a Navalha de Occam*, nenhuma outra hipótese consegue explicar – de modo simples e escorreito – como é que um indivíduo com esse aterrador e infame currículo beneficiou de tão expeditos arquivamentos das denúncias que o visavam. De igual maneira, nada esclarece melhor o porquê de Artur Carvalho haver alcançado o posto de chefe de serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de São Bernardo, sendo, no que tange à competência técnica, um terapeuta desconsiderado pelos seus pares; e, enjeitando ingenuidades pueris, não será difícil de concluir que a suspensão por 6 meses que lhe foi aplicada, infelizmente, resulta do actual contexto mediático.

O Bastonário da Ordem dos Médicos – e bem – já veio pedir desculpa pela clamorosa inépcia da instituição que lidera no fiscalizar e reprimir de más práticas em obstetrícia; porém, não assumamos o papel hipócrita de virgens ofendidas (acreditem, está na moda) e atribuamos a exclusividade das condutas corporativistas aos médicos. O corporativismo existe! E existe na integralidade dos ofícios minimamente organizados. Todavia, nem todas as profissões laboram, literalmente, com a vida e a morte de milhões de portugueses, o que nos obriga, quando assim é, a redobrar a exigência no combate e na penalização de comportamentos ilegítimos e autoprotectores de uma classe profissional.

Ademais, e até por fundamentos de sã convivência comunitária, os cidadãos não podem ficar reféns do medo de encontrar outros Artures Carvalhos que, envergando e manchando a hipocrática bata branca, cometem desmandos inaceitáveis por se saberem resguardados, activa e/ou passivamente, pelos colegas.

Ora, não estou a propor que os médicos, impulsionados pelo aroma vicioso da delação, se devam comportar como prosélitos da sicofantia; nem estou a escudar que os conselhos deontológicos e de disciplina, sem olhar a meios ou a consequências, actuem como fervorosos discípulos do inquisidor Bernardo Gui. Contudo, criticamente, há que operar a destrinça entre erros ocasionais e infracções dramáticas e/ou reiteradas que evidenciam falta de competência no desempenho de um múnus profissional. Nestas eventualidades últimas, afastando a simulação e a omissão, a ética impõe que se reportem os factos a quem de direito; e que quem de direito puna!

Caro leitor, bem sei que a conivência e o silêncio daqueles que testemunham estes excessos e desregramentos decorrem, amiúde, do receio de que haja qualquer tipo de represália, mas então que se robusteçam os mecanismos de custódia dos denunciantes – e que se robusteçam depressa! –, porque o corporativismo pode matar!

João Salvador Fernandes

* A Navalha de Occam é um princípio lógico e metodológico, nem sempre aplicável, que indica que explicação para qualquer fenómeno deve pressupor a menor quantidade de premissas possível, ou seja, que a explicação certa para um fenómeno é, muito provavelmente, a mais simples de todas as hipóteses.

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