A forma de Rio

Em Opinião

Rui Rio está em grande forma! Afirmo-o sem receio de que a minha opinião seja criticada por ceder à hipérbole ou por se encontrar desprovida de qualquer adesão à realidade que nos envolve, porque as filmagens do primeiro debate parlamentar são, irrefragavelmente, à prova do típico spinning que adora desvalorizar o líder do PSD.

Depois de assistir, com bastante curiosidade, à preambular refrega dialéctica entre oposição e governo nesta novel legislatura, não consigo esconder o regozijo pela intervenção assertiva e incisiva do homem que, também na Assembleia da República, capitaneia o Partido Social Democrata. Foi cortante, como um afiado estilete, e bem temperada com gotas mordazes de um humor que deixou António Costa enxofrado, zangado e incapaz de articular uma resposta digna da cadeira que ocupa.

Apontando para o enorme elefante que, no meio da sala, se tenta esconder por debaixo da mesa de reuniões, Rui Rio evidenciou o que a maioria dos portugueses pensa: o Primeiro-ministro apresentou-nos um executivo de qualidade duvidosa que, se se agrupar todo no Terreiro do Paço, às sete da matina, enquanto aguarda pelo descerrar das portas de acesso aos ministérios, levará os transeuntes a crerem que ali abriu uma nova Loja do Cidadão e que já começaram as intermináveis filas de espera.

Além dos excessivos custos que o elenco governativo acarretará para o erário público, ninguém poderá ignorar o descrédito institucional que se consolida ao verificarmos que os destinos do País serão conduzidos por um colectivo que aparenta haver sido seleccionado, em abundância, por uma empresa de trabalho temporário. Temporário, naturalmente, ou acreditam que isto é para durar quatro anos? E o pior: o contratante não conseguiu explicar o que verdadeiramente pretendia, originando uma colossal e vexante confusão, com trabalhadores a serem escolhidos para as mesmas funções laborais e com categorias profissionais quase indistintas. Por outras palavras – e desta, eu gosto muito –, um autêntico mistifório de competências que se sobrepõem ou atropelam…

No entanto, e ainda em referência à mencionada alocução, há que enfatizar a parte que se centrou no escândalo que orbita em redor da “galambónica” concessão à Lusorecursos Portugal Lithium, S.A. da exploração de lítio em Sepeda, no Concelho de Montalegre. Esta coisa de se adjudicar negócios de milhões a uma sociedade anónima sem implementação no mercado, com um capital social de 50 mil euros (o mínimo legal), fundada 3 dias antes da assinatura do contrato e domiciliada na sede de uma Junta de Freguesia do Partido Socialista soa a tramóia do tamanho da Muralha da China (perdoem-me este envergonhado eufemismo)!

António Costa, privado do seu célebre sorriso após escutar Rui Rio, e em reacção, manifestou-se colérico por se observar entalado entre aquilo que asseverou na Circulatura do Quadrado sobre a respectiva intolerância à corrupção e a sua corrente conduta de fazer ouvidos moucos a um contexto deveras intrigante. Relembrando as declarações: “Se alguma vez tiver suspeitas de uma situação de corrupção no PS ou fora dele, faço o que tenho que fazer e reporto às autoridades.”

Não creio que lhe estejam a pedir que impute a alguém o perpetrar de crimes de corrupção ou de ilícitos de similar jaez, mas este enunciar de circunstâncias dúbias justifica que solicite uma aprofundada investigação. Certo?

Contudo, qual foi a contradita do Senhor Primeiro-ministro? Acusar o Presidente do PSD de capitular e praticar o Populismo.

Ora, há alguns anos que os cientistas e os filósofos políticos se digladiam, de um ponto de vista académico, acerca da correcta caracterização do fenómeno que apelidamos de Populismo. Nesse domínio, os consensos são relativamente parcos. Todavia, António Costa já alcançou o que escapou aos demais: a precisa definição de Populismo! E esta determina-se no questionar o governo acerca de esconsas conjunturas indiciárias de comportamentos ilegais relacionados, directa ou indirectamente, com decisões dos seus governantes.

Temos de lhe bater palmas e agradecer a Maria do Céu Albuquerque, dado que estas pioneiras inferências emergem, inequivocamente, de uma lucidez e de uma clarividência resultantes do visionar atento das gravações da 1.ª Edição do Festival de Filosofia de Abrantes, que a actual Ministra da Agricultura, ex-Presidente da Câmara, decerto lhe ofertou.

Porém, julgo haver outra fonte de inspiração para o Senhor Primeiro-ministro. Se consultarmos o Dicionário do Diabo, da autoria de Ambrose Bierce, aprendemos que um demagogo é “um opositor político.” Não se negam as diferenças conceptuais entre Demagogia e Populismo, mas também não se rejeita que costumam passear de mãos entrelaçadas. Daí, basta uma pequeno ajuste e, sem dificuldade, chegamos à maravilhosa conclusão de que um populista é um opositor político que nos confronta com as nossas próprias incongruências.

Continue assim, Rui Rio!

João Salvador Fernandes

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