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A saúde de proximidade corre riscos de esfarelamento. Vamos votar contra

Em Opinião

Há dias, a ler a documentação referente às farmácias comunitárias, li textos empolgantes. Um deles aludia a uma farmácia em Vale de Prazeres, não longe do Fundão. “Fatura menos de metade de uma farmácia média nacional. Desde que abriu portas, a população diminui na mesma proporção. Hoje, serve 1.700 pessoas, na sua maioria idosos, de uma freguesia que se estende ao longo de 23 quilómetros. Vende muito pouco para além do receituário médico. Tem de se concentrar nos médicos e nos medicamentos de preço mais baixo. Na aldeia de Orca, não muito distante de Vale de Prazeres, há um centro de dia e um serviço de cuidados domiciliários, a cargo da Liga dos Servos de Jesus. A religiosa que a dirige e a farmacêutica de Vale de Prazeres formam uma parceria estratégica. Perante a ameaça de encerramento, a religiosa luta denodadamente pela sobrevivência da sua farmácia e recordou ao repórter: “Quero preservar a farmácia porque seria o caos termos de andar a caminho do Fundão para comprar a medicação para 26 idosos. Se a farmácia fechar, acho que vamos atrás, disse a freira”. O mundo tem dado muitas voltas, mas este espaço de saúde mais próximo dos doentes e utentes, neste país pautado por uma cobertura farmacêutica das mais avançadas, ganhou exponencialmente a confiança das populações, com destaque para a interioridade e as freguesias mais pobres do litoral. E porquê?

Há um histórico curricular e de serviço que as gentes não ignoram: há a confiança no farmacêutico técnico do medicamento, há décadas que se deu uma revolução na farmácia clínica que alterou a imagem do farmacêutico, dispensa com conselho, aceita guardar com absoluto sigilo toda a informação sobre o doente, desde que ele queira, esta contribui para que possa detetar dados de prescrição que mereçam reexame por parte do médico, evitando-se assim terapêuticas que tornem o doente mais doente. Mudou o relacionamento entre o farmacêutico e o utente e a farmácia tornou-se num espaço de saúde de onde o doente ou utente só deve sair depois de ter sido informado sobre a utilidade e o modo de tomar o seu medicamento. Acresce que os serviços que a farmácia presta à comunidade aumentaram significativamente nas últimas décadas: recolha de embalagens e resíduos de medicamentos com o objetivo de preservação ambiental; programa da troca de seringas e de administração diária de metadona, para reduzir a toxicodependência, um elevado número de campanhas de saúde pública onde cabem o desincentivo ao tabaco, a prevenção do cancro cutâneo, a deteção precoce da diabetes ou a deteção precoce e a prevenção das doenças cardiovasculares, mais recentemente, e com inegável sucesso, a dispensa de medicamentos para as hepatites e a vacinação. Os doentes crónicos têm vindo a ser sensibilizados para as vantagens que acarreta a gestão da sua doença também com o apoio farmacêutico; e os seniores em geral têm tudo a ganhar com o aconselhamento farmacêutico dados os riscos que são inerentes à polimedicação decorrente das diferentes doenças a que estão sujeitos.

Num país que padece de uma terrível interioridade, as farmácias, reconhecidas como essenciais para resolver os problemas do Serviço Nacional de Saúde (elas que são na prática a luz que não se apaga nessa grande parte do país que vai caminhando para a escuridão que é a desertificação) precisam de ser salvaguardadas como bem inestimável que chancela a prevenção da doença, a promoção da saúde desde os seus cuidados mais elementares, até ao acompanhamento desvelado na doença, como se vê em Vale dos Prazeres.

Beja Santos

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