Encabritada intervenção

Em Opinião

Não gosto de Eduardo Cabrita. Não gosto do Senhor Ministro da Administração Interna. E não gosto desse profissional da indignação obstipada – está-lhe sempre presa no ventre, expressando-se no rosto –, desde que assisti, no quartel da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Abrantes, a um dos seus miríficos discursos sobre floresta e incêndios. Depois de o ouvir, cheguei à conclusão de que o responsável político pela segurança do País consegue, sem uma mónada de vacilo, alterar a história perante quem viveu os factos e pensar que isso não o descredibiliza.

Ora, já que estamos a falar de credibilidade, o homem de sobrenome caprino resolveu atacar, na RTP 1, um confiável homem de sobrenome sideral, Vasco Estrela (até na denominação fica a ganhar), Presidente da Câmara de Mação, acusando-o de haver enveredado pelo comentário televisivo e interesseiro, quando deveria estar focado no combate aos vorazes fogos que, ano após ano, fustigam um dos municípios mais bem preparados para essa inglória luta. Esta, na verdade, foi a menos agressiva das insidiosas imputações com que quis invectivar o autarca.

Há uma ironia insólita nisto tudo, quando observamos o Senhor Ministro da Administração Interna, em directo na televisão nacional, com tiques de comentador iletrado, a reprovar a conduta opinativa e televisiva de uma pessoa que, nos domínios da prevenção de incêndios e da devoção às suas gentes, apresenta um currículo invejável. Só dá para rir…

Porém, concentremo-nos no pior da encabritada intervenção: o comissário político que apontou o dedo a Vasco Estrela, recorrendo, como lhe é costume, à falsária indignação obstipada – ou melhor, à ginástica da indignação, capaz de milhares de inverosímeis cambalhotas à la Rocambole –, tentou insinuar que a força das labaredas em Mação resultava da inoperância do concernente executivo camarário. Para tal efeito, garantiu que o Município optou por não promover a activação do Plano Municipal de Emergência e não dar qualquer cooperação a favor do esforço da Protecção Civil.

Acontece, no entanto, que viemos a saber que o aludido plano apenas fora aprovado, pelo Governo de Portugal, nessa mesma manhã; além de que nada acrescentaria à laboriosa batalha contra as chamas! E também fomos inteirados de como, nas primeiras 48 horas de conflagração, se esqueceram de convocar o edil maçaense para participar em reuniões no posto de comando sito em Vila de Rei.

Percebe-se que Eduardo Cabrita se sente confortável em polémicas de pingue-pongue. Quem não se lembra da palerma troca de bolas – do liga-e-desliga de microfones – que protagonizou com Paulo Núncio? Neste caso, é óbvio que quis provocar uma diatribe de natureza similar, mas com escopo e intensidade muito superiores.

Desejo, firmemente, que Cabrita se deixe destas cabriolas que tanto condizem com o seu apelido e que nos explique o que ocorreu com os supostos mil efectivos mobilizados para enfrentar a mancha ardente! E com as refeições para os bombeiros! E com os helicópteros que, enquanto não houve denúncias do escândalo, se quedavam parados em Macedo de Cavaleiros!

Sobretudo, espero que evite o abespinhamento epidérmico quando se confronta com alguém que, com uma postura recta e de serviço público, demonstra que a sua narrativa idílica e farofeira, quanto a este tão relevante assunto, não passa de uma grande balela.

Solidarizando-me com Mação e com o seu Presidente de Câmara, dedico-lhes a seguinte citação de Demócrito: “Se sofrer uma injustiça, console-se. A única infelicidade é cometê-la.”

Vasco Estrela pode estar a consolar-se, contudo, o infeliz, aqui, é Eduardo Cabrita!

João Salvador Fernandes

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