Mãe, tenho medo de fogo de artifício!

Em Opinião

A greve declarada no sector de mercadorias marcou o Verão de 2019 em Portugal.
Após a greve de Abril, que fez esgotar o combustível de muitos postos de abastecimento, nova greve de tempo indeterminado anunciada para Agosto pelo Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas (SMMP) e pelo Sindicato Independente dos Motoristas de Mercadorias (SIMM). A Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (FECTRANS), sindicato maioritário e que faz parte da CGTP, não aderiu.
Os motoristas de mercadorias estão sujeitos a salários baixos, ao prolongamento de horários, a exigências de cumprimento de funções que não lhes competem e têm fortes razões para reivindicar. Compreensão e solidariedade para com a sua luta!
Contudo, em todos os processos há sempre, pelo menos, dois modos que explicam a ocorrência de um final diferente do que seria expectável para quem vê de fora:


1. O problema dos meios usados: os meios que se usam para atingir um determinado fim podem, se não forem adequados e pensados, conduzir a um fim totalmente diferente;
2. O problema do fim idealizado: o fim anunciado é um, mas o fim pretendido é outro.


Aconteceu que, em Agosto, devido a impulsos de protagonismo, os promotores da greve se dispuseram para que esta fosse instrumentalizada para a limitação do próprio direito à greve.
A deixa foi aproveitada e usada pelo Governo do PS. Os serviços mínimos (máximos!) decretados e a requisição civil são exemplos claros.

Resultado: se a intenção de SMMP e SIMM era zelar pelos interesses dos seus associados, eis que a forma de conduzirem as reivindicações resultou em medidas de agravamento e aumento de dificuldade para a luta sindical. E não apenas no sector, como podem comprovar os trabalhadores da Ryanair, que têm agora também de cumprir serviços mínimos decretados, pela primeira vez, pelo Governo.

Todo este processo deixa-nos a pensar e a questionar. Como se devem posicionar os trabalhadores perante “novos e independentes” sindicatos, que aplicam “novas formas de greve” (todos nos recordamos igualmente da recente greve dos enfermeiros financiada por crowdfunding)?

Como se deve posicionar o povo português perante um Governo cada vez mais musculado e autoritário para com o direito à greve (a fazer lembrar Afonso Costa ou Margaret Thatcher)?

Enquanto decorria a greve no sector de mercadorias, a FECTRANS, que não aderiu à greve, manteve as negociações com a ANTRAM (representantes das empresas) e ambas assinaram um memorando de entendimento onde são tratadas diversas matérias que abrangem todos os trabalhadores do sector.
Entre outras destacam-se as seguintes conquistas:
– Novas regras do pagamento do trabalho nocturno para os trabalhadores do transporte nacional;
– Melhoria e valorização do valor das ajudas de custo;
– Regulamentação da atribuição dos descansos compensatórios do trabalho efectuado aos Domingos e Feriados;
– Actualização da retribuição mensal garantida dos motoristas de pesados que será no mínimo de 120€ e dos restantes trabalhadores do sector entre os 4% e os 6% na retribuição base.

Ganhos e conquistas para os trabalhadores, mas também para o País!  Porque a luta dos trabalhadores é uma luta das populações, já que, em situações normais, todos fomos, somos ou seremos trabalhadores.

Em jeito de conclusão, este episódio da greve fez-me lembrar as crianças que têm medo de fogo-de-artifício. Em boa verdade, talvez me tenha comportado como uma, pois assumo que também tenho medo DESTE fogo-de-artifício. É que, às vezes, ele causa um incêndio!

André Gomes

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