E agora? Qual é a desculpa?

Em Opinião

O melancólico restolhar da pá do coveiro e um coro de chorosos lamentos costumam ser as últimas memórias auditivas de um familiar amaldiçoado por uma doença oncológica. Eu que o diga! Perdi o meu querido irmão para essa maleita perversa e radical que denominamos de cancro!

Em muitos casos, o cenário fúnebre começa logo a desenhar-se no início da luta contra a enfermidade, assim que nos apercebemos de que o tratamento é, mesmo quando triunfa, originador de um sofrimento atroz, inenarrável, capaz de destroçar física e psicologicamente a mais resiliente e optimista pessoa.

Não escolhi esta mórbida conjugação de vocábulos, caros leitores, por frivolidade ou soturno prazer; escolhi, sim, porque choquei de frente, num intervalo de poucos dias, com duas escabrosas notícias relacionadas com o tema. Deparei-me com bárbaras decisões “financistas” do Infarmed e da ADSE que, nos respectivos domínios de acção, dificultam a vida – ou será promovem a morte? – de quem padece de tão tenebrosa patologia.

A primeira, concernente ao Infarmed – e que me custa caracterizar sem recorrer ao insulto –, traduz-se na recusa em conceder autorização para o uso de medicamentos inovadores a indivíduos que se encontrem numa fase exordial desta vil afecção. O Infarmed alega que quem se observa nessas condições não corre risco imediato de vida, mas apenas risco de vida. Dito de outro modo, através de um matreiro critério burocrático e de um jogo de palavras, poupam-se uns cobres ao erário público e, como bónus, ainda se fomenta a rentabilidade da indústria funerária.

A segunda, nascida no universo conturbado da ADSE, veste roupagens de cores bastante similares, uma vez que a instituição não quer comparticipar os aludidos medicamentos inovadores se estes não forem financiados pelo Serviço Nacional de Saúde. De acordo com a ADSE, na ausência desse financiamento, a comparticipação só será admissível em circunstâncias excepcionais e desde que, correndo estes risco imediato de vida, não existam alternativas terapêuticas para os pacientes. Estão a ver as insalubres parecenças, não estão? Eu também!

Lembro-me distintamente, nos tempos de Passos e de Portas, das justas acusações feitas ao Executivo PSD-CDS sempre que, manifestando uma insensibilidade a raiar o absurdo, resolveu sobrepor objectivos orçamentais à saúde dos portugueses; especialmente, quando essas medidas de austeridade conduziam ao precipitar do estado de eterna quietude. Recordam-se da célebre questão dos doentes crónicos com Hepatite C? Fui um dos que se insurgiu com furor e atacou com aspereza, sentindo-me aviltado pela frigidez de alguns dos nossos governantes de outrora.

Pois bem, se agi dessa maneira na altura, porque fecharia os olhos a estes vergonhosos atentados que agora surgem? Porque Mário Centeno é o verdadeiro Primeiro-ministro?! Porque António Costa se converteu num habilidoso milagreiro que, revelando infalibilidade estratégico-táctica – ouve-se por aí! –, obterá uma maioria absoluta nas eleições que se avizinham?! Isso é que era bom! E dispenso pretextos e explicações destilados de alambiques de desresponsabilização, arrazoando que as recriminações se devem cingir às supramencionadas entidades, porquanto todos sabemos que estes refreamentos têm o toque eurocrático do famigerado Cristiano Ronaldo das Finanças.

Na verdade, esta falta de respeito, de sensatez e de compaixão evidencia-se como um conjunto de sintomas de um distúrbio do foro psiquiátrico-político que se manifestou em 2011 e se chama obsessão pelo défice zero. Ora, eu não discuto a necessidade de défices modestos, mas esta horrível coisa de se cair no exagero, castrando-se e depauperando-se serviços públicos na área da saúde, para que Mário Centeno receba umas palmadinhas no costelame, deixa-me profundamente zangado! E isto enquanto, de sorriso parvo no rosto, o dito abana a campânula de Presidente do Eurogrupo…


Termino o artigo, citando e inquirindo, de forma a que se compreenda a perfídia destes factos.

Vítor Veloso, Presidente do Núcleo Norte da Liga Portuguesa Contra o Cancro, esclarece-nos que:

“Nós estamos noutra era, na era da prevenção. Se nós sabemos que há possibilidade de prever se o doente vai metastizar ou não, eu entendo que não vamos estar à espera da metastização da doença para fazer o início de uma terapêutica que, provavelmente, nessa altura, não tem qualquer significado para o doente.”

Passando às perguntas:

Onde estão, neste momento, aqueles que tanto criticaram PSD e CDS? Penso não ser despiciendo rememorar que, apesar da indignação que vos relatei, estávamos subordinados a um contexto de resgate em que os indecorosos prestamistas nos apertavam o pescoço. E agora? Qual é a desculpa?

PS: Citação retirada do sítio online da TSF.

João Salvador Fernandes

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Recentes de Opinião

Falta de chá

Os políticos de punhos de renda notabilizaram-se por serem acutilantes, ferozes nos…

Ir para Início