Alterações sociais

Em Opinião

As alterações climáticas são uma preocupação transversal em Portugal, pelo menos no plano falado e teórico.

No dia 18 de Setembro de 2019, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Santarém, decorreu uma conferência subordinada ao tema “Os actuais desafios ambientais das cidades”. Marquei presença enquanto deputado municipal do Partido Comunista Português.

Fiquei agradado com a iniciativa, mas alarmado. Entre outras coisas foi referido que:
– a concentração actual de dióxido de carbono é a mais alta dos últimos 800 000 anos ;
– as causas antropogénicas contribuem 25-70 vezes mais para as alterações climáticas que as causas naturais (ex: picos da actividade solar);
– em Portugal, 8 dos 10 anos mais quentes ocorreram nos últimos 20 anos;
– os três anos mais secos em Portugal foram 2005, 2007 e 2017;
– a previsão aponta para uma subida média da temperatura do ar a rondar os 1,5 – 4 ºC ;
– no futuro, Portugal, e em particular a zona sul, poderá vir a ter 150 dias por ano sem qualquer chuva (o equivalente a 5 meses sem chover).

Todo este processo leva-nos a pensar e a questionar.

Será que o modelo actual de cidade é sustentável do ponto de vista ambiental?

A (provável) resposta é não.

Citando o Professor António Tavares, ilustre médico de Saúde Pública, “a cidade é a principal inimiga da saúde ambiental”.
Uma cidade de 1 milhão de habitantes consome por dia:
– 11 500 toneladas de combustíveis fósseis;
– 320 000 toneladas de água;
– 2 000 toneladas de alimentos.
Este é o modelo do crescimento desenfreado saído dos finais do século XIX e da Revolução Industrial.

A geração dos meus pais falhou no desafio da ecologia. É provável que a minha também já não vá a tempo de o resolver por inteiro. Resta-nos a alternativa de irmos abrindo caminho para que a geração seguinte alcance o necessário e desejado novo modelo social. Um modelo social assente numa política alternativa que trave os excessos consumistas do capitalismo, que aplique modos de produção energética, industrial e agrícola mais limpas e que desenvolva e defenda os transportes públicos.

Felizmente, Santarém não é uma metrópole e a sua quota-parte na factura ambiental é reduzida. O mesmo se aplica a Portugal. Mas isso não proíbe que também aqui se percorra um caminho melhor.

Podemos também (incluo no pacote os decisores políticos nacionais, regionais e locais), de forma barata, contribuir em massa para ajudar a travar as alterações climáticas. Por exemplo, plantando mais árvores! Oliveiras, sobreiros, azinheiras. Nos campos e quintais, mas também nas ruas, praças e avenidas das vilas e cidades. Se em cada rua verdejassem árvores autóctones, o ar seria mais respirável, menos quente e com menos dióxido de carbono. Se encontrar uma árvore numa cidade fosse tão natural como encontrar um carro, daríamos um forte contributo no caminho ecologista que tanto precisamos.

Para travar as alterações climáticas serão necessárias alterações sociais – uma revolução que traga um novo paradigma social. Porque um problema que é de todos só poderá ser solucionado por todos!

André Gomes

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