Deserto de ideias

Em Opinião


Em Portugal, há mais 25 óbitos do que nascimentos, por 1000 habitantes, o que conduz ao saldo natural negativo (- 25,26). No distrito de Santarém esse saldo é 3 vezes mais negativo (- 67,38).

Os concelhos de Mação, Sardoal e Ferreira do Zêzere constituem verdadeiros pontos negros de perda populacional, inclusivé à escala europeia.

Para além do saldo natural é importante olhar para a idade da população. No concelho de Santarém, existem 165 pessoas com mais de 65 anos por cada 100 pessoas com menos de 15.

Podemos dizer, portanto, que o índice de envelhecimento do concelho de Santarém é de 165. Em Mação, esse índice é de 441, aproximadamente. Ou seja, em Mação, por cada 10 crianças existem aproximadamente 44 idosos!

Todo este processo deixa-nos a pensar e a questionar.

Será que a solução reside no encerramento de escolas e postos de saúde? Será que a solução reside no desinvestimento nas áreas produtivas?

Será que a concentração de serviços em torno de Lisboa e Porto contribuirá para a solução do problema? (a negação de Beja como hipótese válida para o novo aeroporto é disso exemplo)

Será que os terrenos e a floresta deixarão de arder por si, se não tiverem as populações por perto?

Na Legislatura passada, em conversa com um Secretário de Estado, perguntei-lhe o que tinha o Governo em vista para travar a desertificação em massa do norte do distrito de Santarém, cujas consequências práticas estavam à vista (com a catástrofe dos fogos de Mação).

Respondeu-me que estava em vista um projecto de cariz científico, que atrairia algumas dezenas de cientistas para a região. Concordei com a necessidade da aposta científica (tão escassa), mas voltei a insistir: e em termos de sector primário / secundário? Algo que fixasse centenas de trabalhadores? Não houve resposta e a reunião ficou por ali.

Não creio que o País esteja condenado à desertificação; devemos esse acreditar àqueles que resistem nas suas terras.

Não creio que a gestão do declínio, como disse a recém-ministra para os assuntos do Interior, venha a ser a solução ideal.

Mas uma coisa é certa: a ausência de planeamento e a negação da necessidade da regionalização têm-nos conduzido a uma longa travessia no deserto…


André Arraia Gomes

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