Corremos atrás do Sol, cheios de esperança de que conseguiremos mudar o Mundo…

Em Opinião

O menino corria

corria atrás do sol

no correr de cada dia

e no doce brilho dos olhos

toda a alma se lhe via.

O menino corria

corria atrás da lua que se erguia

entre estrelas e magia

e no brilho dos olhos toda a alma luzia.

O menino corria

corria atrás do vento

que fugia para lá do tempo

e nos olhos do menino o vento se perdia.

O menino corria

corria atrás da chuva

e quanto mais água caía

mais o brilho dos olhos se acendia.

O menino dormia

dormia no reino dos sonhos e da fantasia

e nos olhitos dormidos

o brilho se escondia.

O menino acordava

acordava no alvor de cada dia

e a vida renascia no abrir dos olhos

onde a alma luzia.

Até que um dia…

Uma nuvem negra

muito negra

tombou do céu e se fez gigante

de longas barbas e olhar perfurante

com um relâmpago em cada mão.

Roubava o brilho dos olhos

e nas entranhas do trovão se desfazia.

O menino tremia

tremia sem saber o que acontecia.

O menino chorava

chorava sem saber a razão.

O menino fugia

fugia

mas algo lhe dizia

que de nada valia.

Chamou as pombas

rouxinóis e cotovias

sardões

caracóis e libelinhas

enlaçou-se de gavinhas

abraçou as árvores

beijou a terra

e tudo o que nele vivia.

Mas ninguém lhe respondia

todos o olhavam com tristeza e melancolia.

Perdera o menino o brilho dos olhos

porque neles a inocência morria.”

Poema de Adão Cruz

Este poema, de um poeta que é também pintor e que não é certamente dos mais conhecidos, é para mim de um encanto sem par pela beleza da escrita, mas sobretudo pela profundidade e realidade da mensagem que contém.

Para uns representará o desencanto com a vida que muitas vezes chega ao cabo de anos de luta sem êxito por um melhor emprego, por uma melhor situação financeira ou simplesmente pela felicidade ou pelo amor.

Muitos, pelo menos todos aqueles que procuram estar na vida de uma forma que não vise somente nem sobretudo olhar para o seu próprio umbigo, todos os que têm atividade voluntária, cívica, social, solidária, reveem-se certamente naquele rapaz ao longo de todo o poema.

Corremos atrás do Sol com um grande brilho nos olhos, cheios de esperança de que conseguiremos mudar o Mundo e, com o passar do tempo, vamos tomando consciência, desiludindo-nos mesmo por vezes, de que a vida não é assim tão linear, que “o Mundo é composto de tudo”, como dizia a minha antiga vizinha Ermesinda, muito também de gente que como tal e por natureza, não se norteia pelos mais valorosos princípios para singrar na vida… É a tal tristeza e melancolia porque a inocência morria…

Mas importante mesmo, e essa mensagem o poema não nos passa, mas não a podemos esquecer, é que saibamos não desistir desta luta que muitas vezes é a vida, apesar de termos consciência plena desta sua grande imperfeição, que afinal é a de todos nós.

Francisco Mendes

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