Você é um robot consumista?

Em Opinião

Se lhe dissesse para não dar prendas neste Natal chamar-me-ia maluco! Se lhe dissesse para então só dar uma única prenda combinada com a família chamar-me-ia com outro sinónimo…

Agora se eu lhe dissesse que descobri o Pai Natal quando uma noite vi a minha mãe colocar uma prenda simbólica no sapato, que tinha deixado junto ao fogão da cozinha, dir-me-ia que isso eram outros tempos… Se lhe dissesse que havia muitas crianças que recebiam um pacote de bolachas Maria como prenda de Natal dir-me-ia que não podemos voltar a esses tempos…

Nesses outros tempos, que vivi já melhores, a caneta de tinta permanente era uma prenda especial para fazer o exame da quarta classe e o primeiro relógio era ainda mais especial. Mas muitas foram as crianças que só calçaram os primeiros sapatos quando foram para a escola e algumas nem isso.

Não professo a “religião” de que dantes é que era bom, nem nada de saudosismos por um Salazar que encheu o povo de fome mas enriqueceu as já privilegiadas famílias “bem” do regime.

Sou adepto dos direitos materiais e sociais e tenho uma vida de luta por eles. Mas sou ainda mais adepto de crianças felizes, amadas, com relacionamentos saudáveis e dinâmicos com as suas famílias. Sendo ateu, não resisto a trazer o Papa Francisco a esta crónica naquela que foi a sua mensagem de Natal de 2018:

O Homem tornou-se ávido e ganancioso. Ter, acumular coisas, parece ser para muitas pessoas o sentido da vida”(…) “, “uma voracidade insaciável atravessa a história humana”(…) enquanto “uns se banqueteiam outros não têm pão para viver”, apelando a que não se caísse no consumismo e no egoísmo.

Será interessante recordar que o Pai Natal foi transformado em imagem de propaganda natalícia da Coca-Cola, na década de 1930, substituindo o fato verde pelo vermelho e globalizando a imagem vitoriosa do consumismo em detrimento dos afetos. Hoje em dia, o Pai Natal, veste-se invernoso mesmo em climas tropicais com 35.° e ilustra vermelhinho toda a campanha publicitária que se preze.

O desafio que deixo a todas e todos os leitores deste artigo é que substituam as compras de brinquedos pela construção em conjunto com vossos filhos e filhas. Eles e elas já têm um carrinho de rolamentos? Um papagaio de papel? Umas andas? E um jogo de damas? Já os ensinou a jogar ao pião, à malha ou à carica?

Eu sei que não é fácil, a vida é uma correria e afinal as crianças já estão viciadas em telemóvel ou tablete… Assim até ficam quietos e calados não é? E o tempo do adulto é pouco não é? Mas valerá a pena seus filhos juntarem mais 10 brinquedos aos 130 que já têm? Não vos suscitará curiosidade as crianças pedirem sucessivamente o que é anunciado na TV?

Eu sei que não é fácil, palavra de pai, avô e tio-avô. Mas vale a pena tentar. Vocês terão de remar contra a maré, contra a mensagem dominante, terão de aturar mais birras das crianças. As crianças precisam mais de amor, bons diálogos e construção de espírito crítico e autoestima do que de centenas de brinquedos que dois dias depois já nem lembram que existem… Digo eu…

Boa semana de partilha e convívio!

Vítor Franco

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