Bolívia – Facilis est descensus averni

Em Opinião

Facilis est descensus averni, dizia-nos o poeta Virgílio na língua que a tudo confere erudição. À letra, entende-se que “é fácil a descida ao Averno (Inferno)”, o que, em substância, se traduz num aviso bastante sensato para não trilharmos o tão sedutor caminho do mal.

Ora, trago à liça esta locução latina, presente na Eneida, para escrevinhar um pouco sobre a situação na Bolívia e, de igual modo, comentar a forma estranhamente clubista como certos actores políticos, em Portugal, se posicionaram quando confrontados com os eventos que promoveram a evasão de Evo Morales para o México.

É óbvio que a Bolívia colapsou no abismo; todavia, a queda no quintal do Diabo não vem de agora. Façamos uma pequena retrospectiva:

Há 14 anos, Evo Morales conseguia o inesperado: tornava-se o primeiro indígena a chegar à cadeira presidencial boliviana através do voto popular, prometendo acabar com as desigualdades sociais num país em que estas são sobremaneira vincadas e especialmente cruéis. Pressagiava, sob os olhos esperançosos de milhões, uma novel e revolucionária prosperidade económica, num contexto de igualdade democrática.

Não nego que, no início, obteve resultados positivos ao nível do crescimento económico (mas não do desenvolvimento) e na redução da grassante e endémica pobreza. No entanto, também não me verão reconhecer que os efeitos sociais foram, dadas as significativas taxas de crescimento, sobejamente satisfatórios. Longe disso. As gigantescas disparidades económico-sociais entre elites abastadas e plebe desfavorecida, ainda que manifestamente menores, mantiveram-se incontestáveis, a corrupção não minguou e a instabilidade comunitária nunca abandonou o quotidiano dos cidadãos.

Evo Morales perdurou no poder, por conseguinte, construindo alianças com Estados territorial e ideologicamente vizinhos. Em acréscimo, quase sempre que a constituição – incluindo a que propôs e fez aprovar – se converteu num entrave à sua eternização como Chefe-de-Estado, este contornou o problema adjuvado pela venalidade dos tribunais superiores e pela compra da administração pública e das altas patentes militares. Agiu, assim, e apesar das sua raízes nativas, como um autêntico caudilho de origem colonialista.

Contudo, em 2016, quando a constituição lhe voltou a barrar as hipóteses de concretizar os seus desejos de apego ao poder, decidiu convocar um referendo com o objectivo de serem afastados os bloqueios às recandidaturas presidenciais. Perdeu o plebiscito, mas, ao invés de respeitar a vontade do povo expressa num acto que o próprio solicitara, preferiu recorrer para o Tribunal Supremo de Justiça que, proferindo um acórdão que tanto tinha de jurídico quanto uma receita de coelho à caçador, lhe consagrou o direito moral a nunca vagar o Palácio Quemado, bem como suprimiu os limites à renovação de mandatos em todos os ofícios político-públicos.

Como se esperaria, atento o escândalo e a impunidade dos seus executores, a paz social passou a ser uma miragem num deserto.

Por outro lado, e em confirmação desse apreço “moraleano” e pegajoso pelo poder, aconteceu o absurdo no último sufrágio presidencial de 20 de Outubro de 2019: quando a contagem dos boletins apontava para uma segunda volta, deu-se um conveniente apagão na transmissão do apuramento dos votos, o Tribunal Supremo Eleitoral ordenou a suspensão da conferência e, de repente, o ex-sindicalista cocalero foi declarado vencedor.

E a evanescente paz social… passou a guerra campal.

Pois bem, comprimido por tempos exaltados e de tumulto constante, Evo Morales viu-se obrigado a anunciar a realização de novas eleições, como se pudesse haver confiança nas instituições de escrutínio… Entrementes, esqueceu-se de citar a auditoria da Organização dos Estados Americanos (OEA) – igualmente requerida pelo ex-governante de penteado à tigela – que concluiu que “o processo eleitoral de 20 de outubro não seguiu os procedimentos adequados e foi marcado por irregularidades contundentes, que exigiriam sua anulação” (fonte, El País Internacional).

De seguida, e compreensivelmente, as Forças Armadas opuseram-se à fraude eleitoral, o que precipitou a fuga de Morales para o México, o deter de 10 juízes do Tribunal Supremo Eleitoral (englobando a presidente deste órgão de soberania) e a ascensão de Jeanine Áñez aos comandos interinos do Estado Plurinacional da Bolívia; uma ascensão com traços juridicamente discutíveis, porém, confirmada pelo respectivo Tribunal Constitucional Plurinacional.

Apresentado o enredo, não sou capaz de perceber como é que, na direita portuguesa, alguns ignoram deliberadamente que, durante o consulado deste índio em exílio, as condições de vida de muitos bolivianos melhoraram e, entre 2005 e 2015, a pobreza extrema foi reduzida de 36,7% para 16,8%, enquanto o Coeficiente de Gini (utilizado para medir a desigualdade de renda) desceu de 0,60 para 0,47.

De idêntica maneira, não consigo inteligir como é que, na esquerda lusa, se finge desconhecer que, após um longo processo de deterioração – 14 anos, frise-se – , ocorreu a pérfida metamorfose de um anjo solar num demónio troglodita e pródigo em jogadas caudilhantes e esquemas de corrupção, não olvidando a sua patológica homofobia.

Este entrincheirado sectarismo, que se exprime num amor doentio a duas palavras – mesmo que não existam verdadeiras conexões (apenas virtuais) entre direitas e esquerdas dos dois países –, é, outrossim, uma exasperante e genuína descida aos infernos…

E confesso que eu estou farto de descidas aos infernos…

João Salvador Fernandes

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