Uma palpitante viagem à Pré-História onde está o currículo do Sapiens

Em Opinião

Estas “Últimas notícias do Sapiens”, de Silvana Condemi e François Savatier, Círculo de Leitores e Temas e Debates, 2019, são mesmo galvanizantes, a leitura é fluente, os dados científicos estão bem abonados, está aqui, na melhor letra de forma, o ponto de situação relativamente aos nossos antepassados a que se juntam as últimas notícias do Sapiens, a tal espécie curiosa que, afinal de contas, de tudo quanto se dava como apurado, há hoje novos elementos que fazem com que este livro ganhe a dimensão de uma crónica que contextualiza as transformações assombrosas deste bípede descendente do macaco. Escreve-se esta reconstituição do passado sem esconder que há lacunas, questões em aberto que seguramente o progresso tecnológico permitirá esclarecer e dar mais rigor à paleoantropologia.

O que é que nos dizem estes dois autores, uma cientista e um jornalista? O Sapiens pertence à ordem dos primatas, tudo aponta para uma origem africana do género humano; a evolução dos hominídeos verificou-se de uma forma muito ramificada e irregular, os hominídeos passaram por uma série de grandes estádios evolutivos durante os quais coexistiram várias formas próximas que possuíam quase as mesmas estruturas corporais e modos de vida. A bipedia foi a alavanca que consagrou a hominização. A leitura é sempre agradável, logo na peugada dos Australopitecos e por onde pararam em África, os bípedes distinguiram-se dos seus ancestrais por fabricarem utensílios e por explorarem em melhores condições o território envolvente; aumentaram de estatura e de volume cerebral, chegara a hora da hominização, ir-se-iam produzir grupos sociais humanos maiores, sustentados pela linguagem.

A cultura foi a acelerador da evolução, comportamentos, linguagens, regras de convivência do grupo, a prova eloquente com que o estudioso se confronta são peças talhadas, seguramente para caçar. A bipedia fora fundamental, acrescenta-se a evolução do volume craniano, outro ponto chave da hominização. Os autores deixam-nos uma observação curioso: “A nossa evolução levou o desenvolvimento da nossa caixa craniana ao seu limite biológico, em seguida além do que parece fisiologicamente possível, tanto no que se refere ao corpo das mulheres como no plano do metabolismo. Todos sabemos que o parto é geralmente doloroso e amiúde perigoso para a mulher sapiens. O trabalho de parto dura em média nove horas e meia, isto é, cinco vezes mais do que entre o gorila, o chimpanzé e o orangotango… Isso explica-se facilmente: o volumoso cérebro humano implica uma grande cabeça que, nos nossos recém-nascidos, passa dificilmente através do canal pélvico. Daí resultou uma seleção das linhagens humanas cujos ossos cranianos dos bebés nascituros não estão soldados, de modo que uma certa deformação da cabeça facilita a passagem. Uma vez iniciado o parto, a cabeça do bebé sapiens, ligeiramente grande de mais, deve efetuar uma rotação para poder descer pelo canal pélvico (…) Uma vez nascido o bebé, o tamanho do cérebro continua a aumentar durante os sete primeiros anos, quando a criança humana já não está isolada no útero, mas rodeada pelos seus próximos. Assim, o cérebro humano conclui o seu desenvolvimento quando a criança já está sobre a influência da vida social. Para perfazer o desenvolvimento cerebral, a humanidade troca o banho uterino pelo banho social, uma particularidade que explica em parte o nosso extraordinário desenvolvimento cognitivo, uma vez que este prossegue até ao nosso cérebro conter cerca de 86 mil milhões de neurónios, em comparação com apenas 6 mil milhões no nosso primo chimpanzé”.

E assim se encetou a caminhada que levou ao fogo, a bipedia libertou a mão, ao fabrico de instrumentos, ao desenvolvimento de máquinas-ferramentas, estava constituída a trilogia entre bipedia, a mão e o corpo. A caça, o falar com as mãos, o expandir a sua presença por um espaço cada vez maior irá preparar gradualmente a saída de África, embora continuemos sem saber exatamente quando ou como, o facto é que estão espalhados os vestígios dessa itinerância pela Europa, pelo Cáucaso e pela China. A partir daí, o trabalho começa a ser mais simplificado para o historiador, vai classificando as culturas materiais, divide os períodos do Paleolítico, socorre-se de designações que facilitam a comunicação e o estudo destes peritos: o Acheulense, o Musteriense, o Aurinhacense, o Solutrense, o Magdalenense… E o Sapiens passou a ser estudado através do crânio, de uma mandíbula, dos vestígios do fogo, da existência de necrópoles, induziam-se redes de habitats espalhados fora de África. Inundou todo o planeta e transformou profundamente a maior parte dos seus ecossistemas, deixou marcas das linguagens simbólicas (caso das pinturas), sabe-se que era inicialmente atarracado. Descobriu melhores formas de se abrigar, assistiu à extinção dos grandes predadores (colaborou, obviamente, para a sua extinção), intensificou as regras de viver em grupo, multiplicou-se. Por isso os autores dizem que a saída do Sapiens de África distingue esta espécie de todas as outras, porque estas ficaram sempre confinadas a um tipo de ecossistema, o que não se passou com o Sapiens, que conquistou todos os biótipos da Terra. É uma das dimensões mais estimulantes desta leitura ler a expansão do Sapiens por todo o planeta.

E assim nasceu a tribo, resultante do crescimento demográfico das hordas, chegara a hora da sedentarização e da conquista de território, apareceram as guerras. As primícias da agricultura são percetíveis desde antes da última glaciação, as terras férteis começaram a ser disputadas, quem vivia sobre o espetro da fome quis roubar e conquistar, aperfeiçoaram-se as armas. Instituíra-se um modo de vida neolítico. “Muito rapidamente, passámos de recolectores a produtores de alimentos, tornando-nos uma espécie que produz sempre mais para se reproduzir sempre mais. Este comportamento explica que nos encaminhemos para os 10 mil milhões de homens, o que, no estado atual da nossa organização social, é demasiado para o planeta e sobretudo para o resto dos seres vivos”. Dado seguro, o Sapiens vai continuar a evoluir. “O novo fluído cultural corre cada vez mais depressa, e irriga agora metade da humanidade, ou até mais. Ninguém duvida de que vai continuar a espalhar-se mais e a mudar a vida na Terra”.

Alguém observou a propósito deste livro que o proporciona uma leitura tão agradável de se ler como cientificamente rigorosa, que nos esclarece não só quanto ao passado do ser humano, mas também quanto ao seu futuro. Completamente de acordo, é uma leitura estimulante para nos situarmos entre o passado, o presente e o futuro.

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Beja Santos

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