Vem aí o Natal. Também para o bébé e para a mãe?

Em Opinião

Esta manhã, na minha caminhada por estradas e caminhos à volta do sítio onde moro, fui apanhando lixo ( 4 sacos das batatas cheios de plásticos e mais plásticos, papéis, chinelos velhos…) e rezando ( também rezo mesmo sem dizer palavras, falando com Ele, que me ajude a ver tudo com retidão), e não me saía da cabeça a história do bebé achado no contentor do lixo, e também a da mãe do bebé. Que futuro para ele e para ela? Aceita-se como a situação duma casa que caiu em ruínas e assim se deixa ficar porque não há nada a fazer? Fica-se apenas a dizer “coitadinho dele!” sem perguntar que futuro de jovem e de adulto terá, quando quiser saber dos seus alicerces? À mãe, “arrumada” na prisão, a remoer, amargurada para sempre, a memória da tragédia duma vida desgraçada, atiramos-lhe pedras?

A justiça já classificou o crime, faz-se justiça, cumpre-se a lei.

E vem-me à cabeça aquela história: … segundo a Lei, a mulher apanhada em adultério devia ser morta à pedrada; trouxeram-na a Jesus para o apanharem e poderem acusá-lo, e Ele disse apenas: “O que de vocês estiver sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.“ Foram-se todos embora a começar pelos mais velhos.

Fico cheio de esperança com a decisão da Embaixada de Cabo Verde, de ajudar a mãe do bébé.

Como seria bom se a Justiça tomasse a decisão de procurar salvar mãe e filho. Era necessário encontrar quem tivesse o carisma de se aproximar do caos daquela rapariga e de lhe escutar silenciosamente os seus silêncios, e soubesse ajudá-la a descer até ao fundo de si mesma. O caminho mais difícil de fazer é aquele que nos leve ao fundo de nós, para olharmos de frente os nossos alicerces, aceitarmos as “pedras” que lá estão e dar consistência ao edifício que somos

Só assim essa mulher poderia nascer de novo, ter a alegria de gostar de si, de gostar de ser mãe, de sentir que tem um colo desejar o seu filho possa vir e dar-lhe o consolo que daí vem; só assim encontraria maneira de desfazer-se em beijos e gostar da vida. Tem direito a isso.

Há algum tempo, com um amigo, visitei regularmente, durante mais de três anos, um amigo comum que estava preso. Tinha havido a traição vil de gente a quem estava intimamente ligado, perdeu a cabeça, puxou dum canivete, agrediu a pessoa que mais estimava e estima, apanhou seis anos de cadeia, tentou o suicídio por três vezes, desceu até às borras de si mesmo.

Nesses mais de três anos de visitas ouvimo-lo, sempre; conversávamos sim; nunca lhe demos conselhos. Veio ao de cima. Hoje é homem novo, sem rancores, feliz, estimado por todos.

Vem aí o Natal. Também para o bébé e para a mãe?

António Correia

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