Vila Franca de Xira, 1967, entre Mortos e Vivos!

Em Opinião

Na madrugada do trágico dia 26 de Novembro de 1967, as chuvas, persistentes e diluviais, fustigaram Vila Franca de Xira como não havia memória. As sarjetas acabaram por regurgitar para as ruas a água torrencial caída dos céus, a que se juntaram as do Tejo, caudaloso, a trasbordar para as margens e a engrossar a enxurrada que se viria a revelar fatídica.

O primeiro sinal, que me agitou, foi o silvo pungente das sirenes que, inesperadamente, irrompe na escuridão da noite.

Pus logo de lado as folhas de papel em que rabiscava algumas notas para a homilia do domingo em que se estava a entrar, e fui indagar a razão do apelo lançado, assim, pelos ares: a tragédia descera às ruas com seu extenso rol de danos e negro lençol de mortes. Realidade triste em que os jovens, rapazes e raparigas da JOC (Juventude Operária Católica), nem queriam acreditar. Mas o alvorecer do dia revelou-nos, com crueza, o cenário dantesco: grave, nas zonas baixas da Vila, mas incomensuravelmente mais na Povoação de Quintas, entre Castanheira do Ribatejo e o Carregado. O impacto da enxurrada nocturna, autêntica avalanche, converteu em morte súbita as vidas adormecidas dos habitantes do Lugar. E Quintas, tal como tinha sido, foi riscada do mapa!

A margem sul do Tejo desapareceu sob um imenso mar, donde emergiam apenas as copas de algumas árvores da recta do cabo.

Mesmo afogados na consternação, um bom punhado de voluntários, “recrutados” na Paróquia pelo pároco, Dr. Vasco Moniz, a que se juntaram alunos e alguns professores da Escola Técnica Comercial e Industrial de Vila Franca de Xira, organizou um “Comité” de apoio às vítimas necessitadas. E, de imediato, articulando a sua acção com as orientações do Gabinete da Câmara Municipal, deitaram mãos ao que era urgente e necessário, isto é: «cuidar dos vivos, (des)enterrar os mortos»

Na Paróquia e no CASI (Centro de Assistência Social Infantil – obra de acolhimento e formação de Rapazes, criada e dirigida pelo Padre Vasco Moniz: 1944-1974) se fixou, então, o ponto de recolha e distribuição dos donativos provenientes da solidariedade popular: roupas, calçado e géneros alimentícios, como pão, feijão, leite, farinha, que, em parte, ali eram descarregados pelos praças da Escola Prática de Marinheiros (VFX).

Os desalojados, alguns, foram temporariamente colocados na Escola Primária João de Deus, onde lhes eram fornecidas refeições, e ministrados cuidados aos afectados por ferimentos; outros, eram apoiados em materiais vários, levados das oficinas do CASI; e eram incentivados a recuperarem os seus tectos. Na hora de deixarem livre este espaço, para facilitar o recomeço de aulas, houve ainda quem tivesse tido a sorte de encontrar acolhimento na casa-mãe do CASI!

Ao mesmo tempo, e ainda no calor emocional da catástrofe, um outro grupo, formado por jovens da comunidade paroquial, da Escola e por Rapazes do CASI, determinados e corajosos, acompanharam, por horas prolongadas, o escriba destas notas, à época com memória de 29 anos, guiando, ele mesmo, uma camioneta/Hanomag, propriedade do CASI, caixa aberta (3.500 Kg), nas várias “corridas” efectuadas entre a Vala do Carregado e a igreja da Misericórdia, a igreja Paroquial e a capela do Cemitério, em cujos lajedos iam depositando, e lavando, à agulheta, as centenas de corpos desenterrados do imenso lodaçal, com centenas de metros de extensão, contíguo ao Laboratório da Atral-Cipam. Quintas fica deserta, e desolados se quedaram os raros sobreviventes, únicos para fazerem o luto por aqueles que a morte ceifara num curto lapso de tempo! E, para cúmulo, nem uma palavra de consolo saiu da boca, ou da pena dos governantes: Américo Tomás (Presidente da República); Oliveira Salazar (Presidente do Conselho de Ministros). O que veio, sim, da parte do Regime, foi a imposição de uma cortina de silêncio sobre a vastidão da tragédia e do número de mortos que ela provocara.

Negro, duro, difícil e muito pesado, emocionalmente, foi o momento do funeral das vitimas das Quintas, em Castanheira do Ribatejo; e também, em Vila Franca de Xira, o momento da celebração da Missa de “encomendação” dos corpos dos que haviam perecido. Esta Eucaristia foi celebrada pelo padre Dr. Vasco Moniz. E, por solicitação sua, coube-me, a mim, novato coadjutor dele desde há meia dúzia de meses, proferir a homilia. Foi então que, ao estender o olhar por sobre aquela “onda” de cadáveres inertes, crianças e adultos, se me fixou, na memória, a imagem singular de uma jovem, com ar adolescente, expressão serena, tranquila, ostentando uma beleza rara que faria inveja às flores da Natureza da terra que a viu nascer, crescer e, ali, perecer.

Na memória me ficou, também, o exemplo da dedicação, inexcedível, das dezenas de jovens, daquém e dalém Vila Franca, que, apesar do cansaço e da fome, ali se mantiveram, de pé, horas sem conta, a dar encaminhamento a uma das maiores catástrofes naturais que se abateram sobre Portugal!

Escrito, “Ad perpetuam rei memoriam”:

Carlos Alberto Cruz

calmeidacruz@gmail.com

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