De uma obra tão genial da língua portuguesa, dá gosto ler frases intemporais

Em Ribatejo Cool

“1000 frases de Camilo Castelo Branco”, organizado por Luís Naves, Quetzal Editores, 2019, é uma antologia que nos agarra do princípio ao fim, mete amores, desgraças, acordes românticos, diferentes fidalguias; a paleta de sentimentos roça o infinito, há loucuras, gente hipócrita e cínica, paixões desabridas, sátiras e sarcasmos, ultrajes e vexames. Organizador e autor não escondem a profunda admiração. Diz o editor que Camilo Castelo Branco é o mais moderno dos nossos romancistas, que se pode ler de trás para diante e vice-versa, consoante o ritmo cardíaco do leitor. E, parando onde quiser, fazendo pausas quando entender. E cada frase é uma vereda na construção desse génio imortal. Luís Naves, que foi jornalista e se dedica à ficção, também não foge aos encómios, e mostra assim o que sente ao leitor, dizendo que Camilo “serviu-se do romance para construir um género híbrido onde tudo cabe: filosofia, paixões dilaceradas, guerrilha, gastronomia e teologia, mau génio, história, arquivística e até episódios românticos arrancados à sua imaginação. Por isso, as suas frases são escopetas apontados a todos nós, como uma ameaça ou uma gargalhada.

E Luís Naves mostra sobejamente que conhece a fundo a obra de Camilo, a catalogação destas mil frases é suficientemente impressionante. Estamos a falar de desgraças, e demos conta do que ele escreve em A Doida do Candal: “Maria estava de todo desfigurada. Os ossos da face secos e vestidos de pele esverdinhada faziam por igual com paixão e asco. Pestanas e sobrancelhas tinham caído. As cicatrizes roxas dos cáusticos chegavam até ao lóbulo inferior das orelhas. O lábio superior mirrado e alvacento assentava sobre as gengivas; e os dentes, apoiados sobre o lábio inferior, ficavam a descoberto e esquálidos. O colo eram umas cordoveias aderentes a proeminências ósseas”. Mais assustador não pode ser. Nem sempre Camilo passa atestados de inteligência e dignidade àquela fidalguia nortenha, outras vezes é moralizador, e quer-nos fazer ter dó dessa fidalguia mal orientada, veja-se este trecho extraído de “O Filho Natural”, das Novelas do Minho: “Naquele ano, o Banco Hipotecário absorveu-lhe três quintas nas margens do Tâmega e reduziu-o a pouco mais de um conto de renda. Agilde era já propriedade de um brasileiro. Ele mesmo gelou de espanto quando assim, aos quarenta e quatro anos de idade, se viu desvalido com seis filhos, com importância política perdida, desacreditado em todos os grupos, porque a nenhum era útil nem temível”. Há muitos assomos de loucura e desvairo na sua obra, é seguro que Camilo procurava avidamente obras sobre psicologia humana, mas não prescindia de frases sentenciadoras como esta extraída de “Maria Moisés”, das Novelas do Minho: “A estupidez é mais valente que a morte”. Ou então, de Noites de Insónia: “Este senhor Silva (aviso aos naturalistas) dizem que tem as orelhas de tamanho regular”. Não esquecer as teorias da época sobre as bossas cerebrais e a apreciação do crânio, se era dolicocéfalo ou não, fez moda. A escrita de Camilo não esquece as virtudes, os pingos da honra, os trajetos de orgulho, e pintalga-se tudo numa frase sentenciadora, como ele escreve em Cenas Contemporâneas: “A suprema das misérias humanas é a vingança reservada por causa de amores desprezados”.

Quem trata da fidalguia jamais descura o bom povo, mesmo quando se faz uma leitura crudelíssima, veja-se esta observação em Anátema: “João Rodrigues era um homem redondo, vermelho e carnoso. Teria quarenta e cinco anos, e era líquido que se não lavara, durante a sua vida, quarenta e cinco vezes”. E não houve na literatura portuguesa maior perito em descrever a miséria alheia, veja-se de novo Cenas Contemporâneas: “Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Viseu. Do ventre materno passou à roda dos expostos, e daí aos cuidados de uma pobre mulher da aldeia. Aos dez anos, não conhecia pai; e sua mãe, mulher do povo, arrastada sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o segredo do nobre que se dignara descer até ela para honrá-la com desonra”. Mas quando necessário, ou lhe dá jeito pelo fulgor da trama literária, esse povo também se alevanta, veja-se agora este trecho em Vingança: “A baixa sociedade, o vulgacho, mas o vulgacho que veste casaca e é eleitor e elegível, o povo, essa classe de que todos se vão emancipando, de modo que, em breve, não haverá povo, só sabem o que ele é os que lá nasceram, ou lá vieram arribar, ainda bem batidos pelas borrascas da vida”. Quando confrontado com a literatura de Eça de Queirós, a Camilo consagra-se esse epítome de que é dono e senhor da província, o que não passa de uma dimensão da verdade, se nos lembrarmos o que ele escreveu sobre o Porto e suas gentes, mas que não se pode desmerecer a riqueza narrativa do interior e do mundo rural, é bem verdade, atenda-se ao que ele grava em Anátema: “As escarpas cinzentas, que formam a eterna peanha de Vila Real, rugem uma toada soturna e sussurrante; é o frémito dos pinhais e dos arbustos baloiçados pelo sopro cortante e gelado do Marão. […] De entre as matas e florestas surdem guinchos melancólicos de aves, que parecem lamentar-se da sua perpétua condição das trevas. E ao poente, nuvens, que, tétricas e carregadas, coroam os cabeços das serras, mais tarde crescem, recrescem e absorvem o fulgor mortiço das estrelas”. Mas há também o Camilo divertidíssimo, estamos de novo em Vingança: “Teve quatro necrológios o visconde. O primeiro dizia: ‘Bom pai, bom esposo, bom amigo e bom cidadão’. O segundo: ‘Bom cidadão, bom amigo, bom esposo e bom pai’. O terceiro: ‘Bom esposo, bom cidadão, bom pai e bom amigo’. O quarto: ‘Bom cidadão, bom amigo, bom pai e bom esposo’”.

Todos os grandes estudiosos de Camilo, como Jacinto do Prado Coelho, Alexandre Cabral ou José Viale Moutinho são unânimes de que o maior romance de Camilo é a sua vida, entre bulícios e tormentas, prisões e querelas, sovado e exaltado, nascido em 1825, revela-se lúgubre muito cedo, a doença sacode-o da cabeça aos pés, começa a perder a vista e na sua epistolografia antecipa o trágico fim: “Eu estou doente, posto que fora da cama. Padecimentos físicos vieram engravescer uma fase de profunda melancolia com que me sinto sucumbido. Nunca a ideia do suicídio me visitou tão galharda e sedutora”. E noutra carta, datada de 1871: “A minha vida tem continuado a ser o que é há cinco anos: doença progressiva e irremediável, localizada no cérebro, onde não entra a ciência médica”. É uma tragédia consumada, anda por ali bem perto um filho louco, deixou de ler e poder escrever, e diz na sua última carta: “Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante quarenta anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego”. E a seguir suicida-se. É este o genial escritor que esta coletânea de frases tão apropriadamente retrata.

Beja Santos

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Recentes de Ribatejo Cool

Ir para Início