Para compreender o segredo das nações que enfrentam crises e são bem-sucedidas

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“Este livro é um estudo comparativo, narrativo e exploratório de crises e de mudanças seletivas, ocorridas ao longo de muitas décadas, em sete nações modernas, que eu conheço bastante bem, do ponto de vista pessoal, e para as quais olho segundo a perspetiva da mudança seletiva nas crises pessoais. Essas nações são a Finlândia, o Japão, o Chile, a Indonésia, a Alemanha, a Austrália e os Estados Unidos da América”.

É assim que Jared Diamond preambula acerca do seu livro “Como se Renovam as Nações: Crises, Escolha e Mudança”, Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2019. É uma estimulante narrativa onde se debatem crises pessoais, em capítulo introdutório, seguem-se as crises em dois países (Finlândia e Japão), que explodiram num conflito repentino, há depois os conflitos internos, que eclodiram subitamente (no Chile e na Indonésia); mas há também crises que não rebentaram com estrondo, que se foram desenrolando gradualmente (na Alemanha e na Austrália), não são alheias as tensões geradas pela II Guerra Mundial.

Esta fascinante saga humana é facilitada por uma leitura absorvente, decorre de alguém que possui uma vastíssima cultura e que reflete sobre crises nacionais e como o modo de as superar pode contribuir para ultrapassar a atual crise global.

Mais de quinhentas páginas plenas de uma análise histórica, geográfica, biológica e antropológica que o leitor acompanha sem nada de entediante.

A Finlândia assimilou o legado do ataque soviético e do que viveu na II Guerra Mundial, conseguiu um consenso nacional que lhe permite ser uma pequena democracia liberal abastada, pôs um tampão aos apetites russos assumindo aquilo que se chama a “especificidade finlandesa”.

O Japão, que se comportara como uma nação déspota e arrogante, com uma vontade imperial desenfreada, capitulou, recuperou economicamente mas guarda em abcessos o horror que praticou sem pedir perdão, o que alimenta ódios perpétuos que não se confinam à Ásia.

O Chile, que fora uma democracia sem rival na América do Sul, transformou-se numa ditadura sádica, mas soube operar uma sábia reconciliação nacional, que catapultou o país para a senda do desenvolvimento.

A Indonésia seguiu o caminho contrário e não é por acaso que é a mais pobre, a menos industrializada das sete nações em análise, e com uma identidade nacional que esculpe em permanência.

Jared Diamond debruça-se sobre as crises nacionais e australiana, explica o porquê da crise não explosiva na Alemanha do pós II Guerra Mundial e de que modo a Austrália está a remodelar a sua identidade nacional.

Vê-se que o autor pega com pinças a análise ao seu país natal, os Estados Unidos, passa em revista as dimensões da crise com imensa suavidade, comparativamente ao olhar que lança aos outros seis países.

Depois desta longa viagem de centenas de páginas, tira com grande mestria lições que podem permitir um quadro de superação perante qualquer crise. Começa por dizer que o reconhecimento de que se está em crise é fundamental, negá-la é postergar ou envenenar o modo de a superar. Diz abertamente que o Japão e os Estados Unidos continuam a praticar a negação seletiva generalizada de alguns problemas.

Os EUA estão confrontados com: a polarização política, a fraca afluência às urnas, a desigualdade, a limitada mobilidade socioeconómica e a redução do investimento do governo nos meios públicos. Para superar a crise há que aceitar a responsabilidade, evitar a vitimização, a autocomiseração e deixar de responsabilizar os outros.

A Finlândia nunca se autocomiserou, reconheceu que era preciso lidar com a União Soviética e agora com a Rússia. A Austrália vive em permanente resmunga, o bode expiatório é sempre o Reino Unido. A Alemanha depois da I Guerra Mundial negou as suas responsabilidades, e assim preparou a ascensão de Hitler. Mas a Alemanha soube superar-se, assume os crimes nazis, ensina o que aconteceu, e criou relações amigáveis com a Polónia e com os outros países vítimas da Alemanha na guerra.

O terceiro aspeto analisado por Jared Diamond tem a ver com o procedimento de mudanças seletivas e depois adianta a necessidade de ajudar os outros em horas de dificuldade. “O nosso exemplo mais marcante de falta de ajuda por parte dos amigos é a Finlândia durante a Guerra de Inverno contra a União Soviética, quando os potenciais aliados finlandeses ou não puderam ou decidiram não prestar o tão esperado apoio militar. Esta experiência cruel tornou-se a base da política externa finlandesa pós-1945: o reconhecimento de que a Finlândia não deveria contar com a ajuda no caso de um novo conflito com a União Soviética, tendo, no seu lugar, de desenvolver uma relação com a União Soviética que preservasse a independência finlandesa tanto quanto possível”.

Neste fascinante epílogo não é esquecida a identidade nacional, o modo como se lida com a experiência histórica de anteriores crises nacionais, como se atua com paciência e prudência face aos momentos de fracasso nacional, não esquecendo também que os líderes fazem a diferença, o autor recorda Sukarno e Suharto na Indonésia, Willy Brandt na Alemanha, Roosevelt nos Estados Unidos, mas há outros líderes que fizeram a diferença nos tempos modernos: Churchill, Lenine e Estaline, Mao, De Gaulle, Cavour,

Gandhi. Oiçamo-lo ainda a propósito do que se aprende com a História: “Os pequenos países ameaçados por países grandes devem permanecer atentos, considerar opções alternativas e avaliar realisticamente essas opções. Lição que foi ignorada por povos, como os paraguaios, que travaram uma guerra desastrosa contra as forças conjuntas do Brasil e da Argentina, muito maiores; foi ignorada pelo Japão em 1941, quando atacou simultaneamente os EUA, a Grã-Bretanha, a Holanda, a Austrália e a China; e foi ignorada pela Ucrânia no recente confronto desastroso com a Rússia”.

E termina esta narrativa deslumbrante não dando ouvido aos pessimistas e pedindo para que ninguém abdique da esperança: “Desde sempre que as crises têm assolado as nações. Mas as nossas nações modernas, e o nosso mundo moderno, não precisam de andar às apalpadelas enquanto tentam reagir. A familiaridade com as mudanças que resultaram, ou não, no passado, pode servir-nos para nos orientarmos”.

Como Bill Gates observou, Jared Diamond mostra que existe um caminho para atravessar a crise e lembra-nos que nos compete a responsabilidade de o escolher.

Beja Santos

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