A arte sublime dos torneados de Pernes

Em Ribatejo Cool

Artes da Casa” foi a temática da Feira Internacional de Artesanato de 2011. O Instituto de Emprego e Formação Profissional, que apoia o esforço e a aposta na promoção do artesanato português, envolveu-se completamente na iniciativa e elaborou um catálogo que é um perdurável documento de trabalho e uma peça gráfica de grande valor. Tratando-se de uma mostra de nomes significativos, começa-se no Alto Minho, de Trás-Os-Montes desce-se às Beiras e assim chegamos a Pernes, e graças a um admirável trabalho da antropóloga Teresa Perdigão entramos na vila ribatejana, dela saindo com desgosto, tal a exaltação que nos oferece sobre os artefactos e os artesãos.

Pernes, a vinte quilómetros de Santarém, tem muita história para contar. Ali perto, no Cabeço do Livramento, estão as ruínas da central elétrica e dos muitos moinhos e lagares; houve convento e freiras, foi sítio de dezenas de lagares de azeite, moagens, moinhos e azenhas. Esta terra antiga do Ribatejo teve a primeira fábrica de serralharia, de verrumas e foucinhas, do genovês e mestre de teares da Fábrica do Rato. Nos anos 80 do século XIX aqui surgiu a metalúrgica de Carlos Theriaga, que deu trabalho a muita gente, e a antropóloga diz que “As casas transformaram-se em oficinas. Os miúdos, em rapazes de fretes. Os homens, em torneiros, e as mulheres, bastante mais tarde, em decoradoras e pintoras das peças torneadas pelos homens. Das 45 oficinas de torneados existentes em 2000, restam seis, totalmente recicladas e reajustadas a novas necessidades. Para responder à metalúrgica, faziam cabos para pás e berbequins. Depois, com a diversificação da produção, passaram a fazer-se cabos para toda a ferramenta usada na marcenaria e na carpintaria. Logo a seguir, completa-se este leque com cabos para enxadas, forquilhas, picaretas, podões, foices e objetos de uso diário, como os baldes em zinco com que se tirava a água dos poços. De feitura totalmente artesanal, esta atividade passa rapidamente a competir com os modelos industriais, lutando pela maior rentabilização dos meios disponíveis. Por isso, alguns moinhos anunciando a sua futura desativação e abandono, dão lugar a manufaturas de torneados e multiplicam-se as oficinas por toda a vila”. E no início do século XX surge a primeira unidade à qual se pode chamar fábrica de torneados.

Teresa Perdigão descreve no seu trabalho o labor destes artífices e as maravilhas que lhes saem das mãos. Fala-se de António Gomes, nascido em 1944, e que desde os 12 anos que se habituou aos tornos. Temos oficina de Manuel Joaquim, a mais visível na vila e a de maior produção, fala-se das criações de Pedro Rosa que vende para quem recompõe a peça e que ao longo dos anos se adapta em permanência às novas tendências, faz hoje mercados locais, desde Santarém a Coruche, e mercados medievais como o de Aljubarrota. Pernes é um baluarte de resistência dos mestres do torno de madeira. A procura diminuiu, como a antropóloga observa: “As oficinas e fábricas de torneados foram perdendo clientela porque os móveis em pinho, imitando os escanos, os baús, as mesas, cadeiras e cantareiras do quotidiano rural, que encheram as casas que os citadinos recuperavam e reabilitavam nas aldeias do Norte de Portugal e nos montes do Alentejo, esgotaram as necessidades e passaram de moda. Porque todos os apetrechos para a colocação de cortinados que vieram substituir as velhas cortinas passaram a ser vendidos nas grandes superfícies a preços incomparavelmente inferiores (…) Os sofás feitos com torneados não resistiram à invasão destas novas formas de mercado que fizeram definhar as feiras locais. Também as mesas de televisão ou de telefone a que, entretanto, as oficinas recorreram para se manterem a laborar, dado que a clientela precisava deste mobiliário para responder às suas próprias necessidades, tiveram os dias contados”.

Resistir é procurar alternativas e diversificar a produção. E o artigo de Teresa Perdigão termina assim: “Pernes continuará a ser um centro de produção de artefactos em madeira, variando a sua utilização, conforme os gostos e as necessidades. Porém, passou o tempo do uso dos tornos de madeira e o tempo em que havia donas de casa que faziam e recortavam a massa-tenra e os biscoitos com as carretilhas que as crianças de Pernes abriam diariamente. Mas o engenho humano adaptou os antigos saberes à atualidade e prosseguirá”.

Beja Santos

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