China, um paraíso para a corrupção

Em Opinião

De tempos em tempos, nas redes sociais, encontramos partilhas laudatórias ao combate à corrupção na China de Xi Jinping. Lembro-me, por exemplo, de uma publicação que elogiava o sentenciar de importantes membros do Partido Comunista Chinês a prisão perpétua e à morte, defendendo, também, que Portugal deveria, em emulação dessas práticas, abdicar de elementos estruturais do Estado de Direito e da Democracia para castigar este tipo de crimes com maior eficácia e equivalente severidade.

Para que não haja dúvidas, eu oponho-me, sem mínimas transigências ou claudicantes aberturas ao compromisso, a penas dessa iníqua magnitude; mas não me centrarei nesse tema. Quero salientar, sim, que as pessoas que observei a manifestar concordância com o uso de guilhotinas contemporâneas como forma de condenação por ilícitos financeiros graves, na cegueira induzida pela palavra corrupção, não se preocuparam em saber que os degenerados que vão surgindo e sendo sujeitos a cruéis processos inquisitoriais no Reino do Meio – como o supostamente abolido Shuanggui – são sempre indivíduos que contestam ou se relacionam com quem questiona o poder do omnipotente e quase divinizado Presidente da República Popular da China.

Esqueceram-se, igualmente, de que só a Democracia luta contra a corrupção, ainda que lhe seja permeável, porque esta última, furtiva, medra e se desenvolve quase livremente em regimes de natureza diversa, sendo tão-somente exposta quando os estelionatários não são os próceres da situação ou quando alguém, consciente ou inconscientemente, se torna indesejado para os que mandam.

Ora, adensando aos inaceitáveis desmandos do coetâneo Imperador Han e do seu círculo de fiéis vassalos (recordemos os eventos em Hong Kong), foi recentemente trazido ao conhecimento do mundo que a China criou, em Xinjiang, campos de concentração para uma das minorias étnicas que habita no seu território: os Uigures. Estes seres humanos – e friso a qualidade fundamental de se ser humano! –, vêem-se subjugados por uma infinda e monstruosa malignidade que ambiciona destruí-los. Homens e mulheres – que são sinocidadãos de pleno direito –, estão a ser torturados, despersonalizados e esterilizados, de maneira a que, gradativamente, uma purga se transforme no genocídio de um povo e da sua diferente cultura.

De entre estes actos intoleravelmente chocantes, enfatizo a perversidade dos esquemas e estratagemas utilizados para afastar crianças uigures das suas famílias, enclausurando-as em instalações públicas e operando violentas lavagens cerebrais apelidadas, eufemisticamente, de programas de reeducação social.

Contudo, e em suma, a Comunidade Internacional age com uma brandura inadmissível e hipócrita em relação à China, tentando não perturbar um potentado económico capaz de depositar fartos e gordos renmimbis em contas bancárias de sotaque ocidental. E o nosso País também não se safa!

Tudo isto leva-me a uma perturbadora conclusão: o centro democrático e moderado, grosso modo, vendeu os seus princípios e valores ideológicos e ético-morais ao poder do dinheiro; e essa venda, mesmo em circunstâncias inegavelmente lícitas, afastou muita gente das forças políticas que o representam. Por seu turno, tal incrementou a sedução pela dureza punitiva dos regimes autoritários e totalitários; porém, quem cede ao canto da sereia não se apercebe de que está a propor, como solução, uma realidade que robustece e facilita o germinar dessa mancha que tanto indigna, porque a esconde e instrumentaliza!

João Salvador Fernandes

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