Nunca hás-de ser alguém!

Em Opinião

“Nunca hás-de ser alguém” é uma afirmação que se ouve com alguma frequência por educadores e até pais a crianças. Foi o que um dia um professor disse a uma criança filha de imigrantes. Aos 15 anos, o irrequieto jovem foi declarado indesejado na escola “a sua presença na escola prejudica o respeito que os alunos têm por mim” disse-lhe um professor. Dedicou-se a passear pela Itália, consta que não tinha sido de bicicleta, como eu gosto…

(…) Estudante medíocre. Estudava apenas aquilo a que era obrigado, o que estava estipulado, não comparecia às aulas e dedicava-se ao que o interessava. Mais tarde escreveu: o grande problema disto é que eu era obrigado a meter tudo aquilo na cabeça, quer quisesse quer não, para conseguir passar no exame”.(1)

O “pária insatisfeito”, o filho de imigrantes, o jovem que gostaria de ter sido faroleiro, tinha um problema: estava há muito tempo apaixonado. É verdade, só que a sua paixão não se enquadrava naquele sistema, naquele regime, naquela formatação. Casou-se; a sua paixão incentivou-se por outra…

Escreveu livros, mas as suas obras foram queimadas em piras na praça pública. A sua paixão não abrandou, a sua inquietação era constante, a sua constestação ao regime não esmorecia. Aquele filho de imigrantes não teve medo de ser insubmisso. Chegou a auto intitular-se de socialista, opôs-se à guerra e às armas nucleares, tornou-se pacifista, considerou incompetentes as classes dominantes, fez campanhas anti-racistas…

O filho de imigrantes nunca haveria de ser alguém…

A esse filho de imigrantes o extraordinário cientista Carl Sagan dedicou um capítulo num livro que gosto muito. Esse capítulo tem como título “Esse mundo que acena como uma libertação”. É também um título extraordinário, poeticamente motivador, absolutamente esperança…

Assim me sinto quando vejo e revejo as manifestações de juventude em defesa do ambiente: absolutamente esperança! Por certo, o filho de imigrantes e Carl Sagan [que faleceu a 20 de dezembro de 1996] adorariam ver estas manifs de jovens irrequietos.

Os jovens estão ensinando cidadania, estão ensinando democracia. Não há planeta B!

O filho de imigrantes, que nunca haveria de ser alguém, nasceu ali juntinho ao rio Danúbio em Ulm. Não sei se também o percorreu de bicicleta como o pude fazer em junho deste ano, mas imagino que também estaria na manif comigo em Ulm ou em Munique. A sua paixão maior, o que o interessou, foi a Física!

O filho de imigrantes, que nunca haveria de ser alguém, foi Albert Einstein. Tornou-se cientista, foi um físico brilhantíssimo, foi prémio Nobel e hoje é estudado por todos os jovens do mundo. Pena é que se isole o estudo das teorias da relatividade ou da quântica das idiossincrasias da pessoa que as teorizou – é que as vivências fomentam as ideias!

Para me castigar pelo meu desprezo pela autoridade, o destino fez de mim uma autoridade”.

Albert Einstein.

Em muitas manifs costumamos gritar “Primeira/ segunda/ terceira geração/ nós somos todos/ filhos de imigrantes; primeira/ segunda/ terceira geração/ nós somos todos/ filhos de imigrantes”!

Vítor Franco

(1) Sagan, C. (1987). O Cérebro de Broca. Círculo de Leitores.

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