Falta de chá

Em Opinião

Os políticos de punhos de renda notabilizaram-se por serem acutilantes, ferozes nos debates em que se empenhavam, cultivavam as boas maneiras, distantes das grosserias de taberna (Marques Mendes), hábeis a esmiuçarem jocosidades pesadas tornando-as leves nos salões e nos passos perdidos de S. Bento. Uma leitura dos discursos e apartes de tribunos do quilate de Adriano Moreira, Freitas do Amaral, Magalhães Mota, Sá Carneiro, Mário Soares, Salgado Zenha, Álvaro Cunhal, Veiga de Oliveira, só para citar aqueles vindos para o Parlamento depois do 25 de Abril, são exemplo de sobriedade, argúcia e destra agilização da língua portuguesa. Estes e mais alguns deixaram bons exemplos sem perderem a noção dos seus objectivos e/ou propósitos.

Os punhos de renda na retórica principiaram por dar lugar a uma prática cada dia mais virulenta, nenhuma bancada escapa à gritaria (Rui Rio impôs alguma contenção) os berros de quem fala mais alto de Montenegro e Hugo Soares quase se apagaram, a riscante Catarina a par de Cecília moderaram a intonação (para já), no PS os dichotes esmoreceram, tudo parecia não grandiloquente, sim mais urbano e civilizado.

Esta concórdia tão distante da tão recente Legislatura revelou-se nuvem sem Juno, sinais anteriores explodiam de quando em quando na bancada do governo, só que agora as explosões são quotidianas, nem António Costa escapa, os ministros e secretários de Estado conseguem ultrapassar pela direita André Ventura e pela esquerda a Senhora deputada e o umbilical assessor do qual espero informação acerca do título da sua tese de doutoramento. A minha curiosidade é puramente intelectual. Sublinho.

Vários governantes dão-nos sobejas provas de não terem tomado chá educativo na infância, na semana finda evidenciaram-se o bem acolhido Galamba em Boticas, na qualidade de deputado exibiu inusitada desenvoltura no tocante à falta de boas maneiras, no exercício de ajudante do ministro varre a área ao modo dos defesas especialistas no fazerem o mal e a caramunha, arrepiando caminho quando lhe aparecem pela frente as mulheres de Barroso a dizerem para cá do Marão mandam os que cá estão, prescindindo do exemplo da vizinha Maria da Fonte, ou do famoso guerrilheiro daquelas paragens, o Padre Casimiro.

O ministro Matos Fernandes no último debate parlamentar em vez de responder educadamente a uma educada à pergunta de Rui Rio preferiu optar pelo escabroso linguajar dos carroceiros de antanho entendidos, useiros e vezeiros no recurso a expressões soezes ora à laia de chalaça, ora na esperança de originarem escaramuças muito bem descritas nos romances camilianos. Esta tendência governamental não augura nada de bom, augura a predominância do trovão em detrimento da serena análise do contraditório no desejo de o povo reconsiderar relativamente ao comportamento dos políticos notoriamente privados de falta de chá.

Armando Fernandes

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