O primeiro grande romance europeu de crime com humor negro

Em Ribatejo Cool

O escritor britânico Richard Hull trabalhou como assistente de Agatha Christie e deu à estampa, em 1934, “O assassinato da minha tia”, o seu primeiro romance e que seria o título mais famoso de todos os que publicou. Tem plena justificação a sua reedição por diversas razões: a mestria da organização da trama, gizada como o diário de um potencial assassino, um sobrinho pouco amante do trabalho e que vive a expensas de uma tia convencional, dominadora e caprichosa; o facto de a organização temática ser um trágico enredo entremeado de cenas caricatas e burlescas, em que os principais protagonistas usam e abusam daqueles clichês que iremos encontrar nos filmes negros do período de ouro do cinema britânico dos anos de 1950 e 1960, trocadilhos venenosos e mordentes, frases assassinas ditas com sorriso amarelo. Edward Powell é o falhado sobrinho, nédio e solitário, com toneladas de ressentimento, a tia não o deixa arredar pé da pacata vila galesa de Llwll. A tia Mildred é uma déspota de voz suave que vai trocar as voltas ao sobrinho Edward. Como se escreve na contracapa deste livro, “O assassinato da minha tia” é considerado uma obra-prima das histórias de detetives invertidas, em que a questão que se põe não é ‘quem é o culpado?’, mas ‘como será cometido o crime?’ e em que o narrador é tudo menos o herói. Era o pontapé de saída também no anticlímax, no rocambolesco tratamento entre tia e sobrinha. Quando se lê este livro, torna-se mais fácil compreender a distinção entre a literatura de crime e mistério nos EUA e no Reino Unido, no mesmo período. Os norte-americanos enfatizavam o romance-problema, pareciam ser os herdeiros de Conan Doyle e de Sherlock Holmes. Os britânicos insistiam numa literatura muito próxima de um género empolgante, numa proximidade de gente de carne e osso, nunca excluindo a comicidade ou o sorriso resguardado na descrição de uma paisagem, de um ambiente ou dos protagonistas. Veja-se o que Richard Hull escreve dessa região galesa de Llwll:

“Viver perto de Llwll é aterrador. Viver em casa da minha tia é pior ainda. Fica a três quilómetros do fim do ridículo ramal da via-férrea de Llwll para Brynmawr, e a minha tia é uma daquelas pessoas que, se possível, arranja as coisas de modo a que esses três quilómetros tenham de ser percorridos a pé. Aprecia particularmente que isso se passe assim comigo, porque sabe muito bem quanto me desagrada caminhar e o absoluto desprezo que sinto pela estrada de Brynmawr. Brynmawr é um nome pateta para uma casa. Saindo de Llwll, há que trepar dois quilómetros. A minha tia, depois de estudar com grande cuidado a carta do Estado-Maior, informou-me que apenas se tem de subir 182 metros, o que aparentemente é quase nada. Acontece que depois de se ter subido os 182 metros, nos achamos obrigados logo de seguida a descer outra vez para, imediatamente, voltarmos a subir”. Vigiam-se e odeiam-se com frases polidas. A tia Mildred socorre-se de espiões para saber todos os movimentos de Edward, desde pastores até ao chefe da estação. Jogar bridge em casa do médico é um inferno para Edward. O acossado sobrinho atingiu o limite do suportável, prepara uma maquinação na carripana da tia para que esta desande pela ribanceira abaixo, o que virá a acontecer, mas sem consequências de maior. Exasperado, ainda por cima, o seu cãozinho de estimação foi atropelado mortalmente no acidente forjado, reforça o projeto de se desfazer da tia, o grande entrave para ele embolsar o bom pecúlio do património dos Powell, naquela malfadada vila galesa.

Percebe-se o sucesso deste livro impecavelmente redigido, naturalmente datado, mas que se lê sem qualquer engulho, amores e ódios estão impecavelmente retratados. Num desespero, no final do almoço sombrio, depois dos insuportáveis comentários da tia, Edward dobra a colher quando se atirou ao pudim. Com serenidade, a tia Mildred observa-lhe:

“Os Powells, meu querido Edward, vivem em Brynmawr desde 1658. Essa colher tinha mais de cem anos. Temos sido sempre respeitados na região. É uma lástima partires as colheres antigas num acesso de cólera. É uma lástima afastarmo-nos das velhas tradições”. Quase de cabeça perdida, o sobrinho pensa em venenos, em incêndios, aquela bruxa tem de morrer. E o leitor embarca na ilusão de, doa a quem doer, aquela sacripanta dê a alma ao Criador. Como este esplêndido romance ganha pela originalidade, é no epílogo que Richard Hull sobe ao cume do remate engenhoso, todo aquele exercício do diário de um sobrinho em ponto de rebuçado para se desfazer da tia é visto no reverse do espelho.

Richard Hull esmera-se no desenho dos protagonistas. Veja-se a mulher do médico, Mrs. Spencer, é tratada como uma hóspede das mais estranhas. “Na sua casa mostra-se débil, sofrendo sempre de um complexo de inferioridade pelo receio que tem de que os outros critiquem as suas coisas. Poderia pensar-se que, livre das suas preocupações domésticas, Mrs. Spencer seria capaz de encarar o mundo de frente e animar-se um pouco. Nada disso, porém. Apresenta sempre um ar ausente, exceto para enviar ocasionais olhares de adoração ao marido e ao filho. Durante muito tempo, foi-me impossível imaginar o que ela pensaria quando estava fora de casa, até que percebi que se tratava de uma dessas pessoas que são constantemente afligidas pelo receio de terem deixado destapado o ralo da banheira ou o gato metido na despensa”.

Abria-se pois uma fresta na literatura de crime e mistério, conservando uma pitada de ódio puro, o frenesim de matar e uma arquitetura romanesca onde não faltava mistério e os preparativos para um bom alibi. Era o crime às avessas, como aparecerá mais tarde o romance do crime com o assassino impune, o romance em que é o próprio criminoso que escreve a trama da obra. Foi uma originalidade, ao tempo em que nascem detetives privados e polícias, génios como Hércule Poirot ou Philo Vance, uns discretos e corriqueiros, outros intelectuais e dados a revelações prodigiosas, como Ellery Queen. Mas mais ninguém conseguiu um tratamento de anti-herói como Richard Hull neste saborosíssimo e indispensável “O assassinato da minha tia”.

Beja Santos

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Recentes de Ribatejo Cool

Ir para Início