Clube UNESCO para o Património Cultural – Apresentadas ideias para o Museu Mineiro em Rio Maior

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Assinatura do protocolo de criação do Clube UNESCO para o Património Cultural, em Rio Maior. Da esquerda para a direita: Anna-Paula Ormeche (CN UNESCO), Nuno Rocha e Manuela Fialho (EICEL1920). Foto: Paulo Araújo, Comércio & Notícias

A sala da Biblioteca Municipal Laureano Santos, em Rio Maior, voltou a encher para acolher uma iniciativa da EICEL1920. Desta feita, tratou-se da cerimónia de assinatura do protocolo que oficializou a criação do Clube UNESCO para o Património Cultural, em Rio Maior, no dia 23 de novembro.

Pela parte da Comissão Nacional da UNESCO, Anna-Paula Ormeche justificou a atribuição da chancela da UNESCO à EICEL1920 pela “grande qualidade do projecto”. Anna-Paula Ormeche garantiu que a UNESCO vai acompanhar o seu desenvolvimento e manifestou disponibilidade para dar “todo o apoio necessário à sua implementação”. Destacou ainda as suas “notáveis potencialidades” e a convergência dos objectivos do Museu Mineiro de Rio Maior com os ideais da UNESCO, adiantando a possibilidade de desenvolvimento de parcerias internacionais que promovam o projecto da EICEL1920 à escala global na rede de Clubes UNESCO.

Em nome da EICEL1920, o presidente da direcção, Nuno Rocha, agradeceu a distinção e a presença da comunidade riomaiorense, realçando a importância da memória colectiva e da “marca profunda” que a Mina do Espadanal deixou “no tecido social de Rio Maior”.

O arquitecto traçou ainda uma breve história da mina, resumiu a atividade passada da associação em sua defesa e levantou um pouco o véu dos planos futuros.

Nuno Rocha fez-nos regressar ao período da I Guerra Mundial para contar a descoberta do jazigo carbonífero de lignite no Espadanal pelo republicano António Custódio dos Santos e a posterior constituição da Empresa Industrial, Carbonífera e Electrotécnica, Limitada (EICEL). Noutro período de crise, durante a II Guerra Mundial, o Governo atribuiu às minas de Rio Maior um papel de reserva de combustível para “garantir o funcionamento das indústrias de Lisboa”, acrescentou. A exploração mineira desta época levou à “maior migração laboral registada na história da região”. 1500 pessoas chegaram causando “a ruptura da capacidade de alojamento e assistência social na então pequena e rural vila de Rio Maior”.

No pós-guerra, o Governo decidiu manter o carácter estratégico da mina, precavendo a eventualidade de um novo conflito internacional, e apoiou financeiramente o desenvolvimento industrial do complexo mineiro, promovendo a construção de uma fábrica de briquetes.

A história da actividade mineira termina no final da década de 60 no contexto de “uma grave crise gerada pela dificuldade de colocação do carvão nos mercados de combustíveis”. Ainda existiu o projecto de construção de uma central termoeléctrica mas a actividade não foi retomada.

Trinta e cinco anos depois começa a história da luta pela salvaguarda do património mineiro que daria origem, em 2010, à criação da EICEL1920, Associação para a Defesa do Património. A partir de uma investigação académica encetada pelo próprio Nuno Rocha, começou a juntar-se conhecimento e vontade, processo para o qual foram fundamentais os antigos mineiros que passaram a constituir a Comissão de Antigos Funcionários da EICEL.

Foi possível recuperar “um importante espólio fotográfico e de equipamentos do antigo couto mineiro, que servirá de base ao futuro museu, promoveu-se o envolvimento das novas gerações na valorização do património, em cooperação com a comunidade escolar, disponibilizou-se ao Município um contributo para o reconhecimento deste património no Plano Estratégico de Desenvolvimento de Rio Maior, e, acima de tudo, inverteu-se o estado de abandono e degradação em que se encontrava a antiga fábrica de briquetes com a realização das Acções Voluntárias de Conservação do Património Mineiro”, sintetiza.

Para o objetivo fundamental que a associação fixou, o de instalar um Museu Mineiro na antiga fábrica de briquetes, foi importante a assinatura com a Câmara Municipal de um Protocolo de Colaboração e de um Contrato de Comodato, no âmbito do qual foi cedida a antiga secção de trituração da fábrica de briquetes para o desenvolvimento deste projecto, renovados recentemente para os próximos cinco anos.

A EICEL1920 pretende que o restauro deste edifício traga de volta as suas “formas, materiais e cores originais, adaptando-o às novas funções museológicas com recurso ao menor número possível de alterações”. Para além de uma exposição interpretativa da história do Couto Mineiro do Espadanal, aí será instalado o triturador de lignite original, “a única grande máquina que permaneceu em Rio Maior após desmontagem da fábrica nos anos 70” e será reconstituído o sistema de descarga das vagonetas.

Foram apresentadas, durante esta intervenção, as obras em curso no edifício da secção de trituração da fábrica de briquetes e uma sequência de visualizações tridimensionais do projecto de restauro.

Igualmente importante para todo este projecto é, segundo Nuno Rocha, o acto constitutivo do Clube UNESCO para o Património Cultural que nessa ocasião se celebrava e que se insere “num objectivo de integração do futuro Museu Mineiro de Rio Maior nas redes internacionais de salvaguarda e valorização do património cultural”. Esta internacionalização passará ainda por projectos de intercâmbio cultural com entidades congéneres que introduzirão “uma vertente internacional de estudos do património arquitectónico”.

Um sonho que começa a ver a luz do dia

Esta sessão tinha sido aberta pela presidente da Mesa da Assembleia Geral da associação, Manuela Fialho, que depois de ter sido, em Setembro passado, “o arauto das boas notícias” da criação de um Clube UNESCO em Rio Maior, reiterou nesta circunstância que o projeto “honra” e “engrandece” o trabalho realizado pela EICEL1920.

Manuela Fialho apresentou o projecto do museu mineiro como “um sonho que vimos alimentando e que começa a querer ver a luz do dia”, considerando que será “um espaço que honrará a memória de todos quantos contribuiriam para que Rio Maior chegasse aqui” e esperando que a cerimónia que se iniciava inspirasse os presentes “com ideias para fazer da nossa cidade um lugar ainda mais aprazível”.

A sessão encerrou com um momento musical da responsabilidade do Grupo Coral CantoRio e com um Porto de honra.


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