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Loja social em Santarém é exemplo de reabilitação de pessoas com doença mental

Em Sociedade
Foto João Baptista/Mais Ribatejo

Situado nas traseiras de um prédio do populoso Bairro de S. Domingos, em Santarém, o “Espaço Trocas” tornou-se num exemplo de reabilitação psicossocial de pessoas com doença mental e de inserção na comunidade.

Criado há quatro anos, data que será assinalada na próxima sexta-feira com um lanche aberto à comunidade, o espaço funciona como uma loja social dotada de moeda própria, as “cabacinhas”. Por ali já passaram duas dezenas de utentes do hospital de dia do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Distrital de Santarém (HDS).

“As pessoas que aqui estão não voltaram a ser reinternadas nestes quatro anos do projeto. Só isso é uma grande valia”, disse à Lusa Ana Mendes, psicóloga da equipa, salientando que o objetivo inicial, do treino de competências que permitisse um regresso ao trabalho ou aos estudos, foi “ultrapassado em muito” ao criar um envolvimento com a comunidade.

Também Carla Ferreira, enfermeira, destacou como o projeto ultrapassou o objetivo inicial de reabilitação psicossocial para se tornar num “espaço de partilha, de troca de saberes e de experiências” entre os utentes, a comunidade e a própria equipa.

“É um projeto que faz acreditar no amanhã. É possível recuperar de uma situação de fragilidade, de doença. É possível termos os nossos utentes com doença mental integrados na comunidade, incluídos, e é esta forma de cuidar que a equipa acredita que faz toda a diferença no combate ao estigma da doença mental”, afirmou.

Eduardo Vieira, que frequentou o “Espaço Trocas” durante dois anos, falou com a Lusa à saída de um ‘workshop’ em que participou, no Instituto da Juventude, já concluído um curso de formação profissional na área de informática.

“O ‘Trocas’ deu-me capacidade para andar com a vida para a frente. É um treino diário de rotinas, de responsabilidade”, disse.

Como ele, André Rosa concluiu o curso e está já a trabalhar.

Desde o início no projeto, Isabel e Dulce não hesitam em afirmar que devem a este espaço o reencontro com a sociedade, que só agora começa a revelar melhor compreensão para com uma doença “escondida”, e que encontram ali o apoio de que necessitam nos momentos de maior dificuldade.

“Já não tenho tido crises”, disse Dulce Oliveira, salientando Isabel Pedro a importância do contacto com os clientes, que acabam, eles também, por encontrar no “Trocas” um lugar onde “se sentem bem”.

“Não é muito evidente como este tipo de atividade pode ajudar numa doença mental, mas, na verdade, quando vimos para aqui e falamos com os colegas, que normalmente se tornam amigos, já estamos a conseguir conviver com pessoas, já conseguimos sair de casa para ter atividades”, salientou Pedro Tecedeiro.

Para o jovem, coisas simples, como a organização do espaço, levam a que seja possível “iniciar e terminar” tarefas, “competências que se podem utilizar” depois no trabalho, nos estudos.

“Quando damos por nós já temos motivação para fazermos coisas que não tínhamos motivação para fazer, até atividades lúdicas. Há uma altura nas nossas vidas em que não somos capazes de fazer isso e este tipo de terapia dá um bom empurrão”, declarou.

Sandrine Roque, 28 anos, no “Trocas” há cerca de um ano, confirma a importância de “socializar”, confessando que lhe tem feito bem atender as pessoas e fazer o registo da informação nas fichas de inscrição, que são já 325.

Pelas mãos de Joaquim Rodrigues, 82 anos, passaram parte dos arranjos que permitiram transformar o espaço cedido pela Junta de Freguesia da Cidade de Santarém numa loja acolhedora.

Também ele utente do hospital de dia da psiquiatria, encontrou no “Trocas” uma segunda casa, que divulga junto de amigos e vizinhos e onde também faz “negócio”, trocando bens por carrinhos para a sua coleção, um gosto que lhe ficou dos tempos em que preparava carros para competição.

Aberto às segundas e sextas de manhã e às quartas de manhã e de tarde, o espaço tem uma afluência média diária de 10 clientes, com a maioria a procurar alimentos e vestuário, afirmou Márcia Almendra, terapeuta ocupacional.

Cliente habitual desde o primeiro momento, Fátima Rodrigues salientou que encontrou no espaço, além dos alimentos que a têm ajudado num momento de dificuldade, uma família.

“Temos coisas lindíssimas. Há pessoas que vêm à procura e ‘olha, era mesmo isto que eu queria’”, disse Isabel, salientando que nesta loja funcionam as notas de 1 a 10 “cabacinhas”, sendo entregues duas “cabacinhas” pela entrega de roupa (um máximo de três peças por dia) e cobradas três por dois alimentos.

Na relação com a comunidade, além dos clientes e do espaço de convívio (é sempre possível beber um café), o “Trocas”, que continua a contar com o apoio da junta de freguesia, doa bens em excesso a outras instituições, como a Ajuda de Berço, e faz campanhas para angariação de bens, sobretudo alimentares.

Ao “Trocas”, pioneiro na vontade de sair do hospital e ir para a comunidade, o Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental do HDS juntou um outro projeto ligado às artes e à pintura, o “Incluir”, também financiado no primeiro ano mas já a funcionar autonomamente, e iniciou este mês um outro, o “In.Cooking”, que passou pela reabilitação da cozinha do hospital de dia e que tem a funcionar oficinas de culinária orientadas pelo chefe Rodrigo Castelo.

“Vamos arranjando formas muito criativas de dar sustentabilidade aos projetos. Eles não morrem a seguir ao financiamento”, afirmou Ana Mendes.

Carla Ferreira destacou a validação científica do impacto dos projetos na redução do estigma na comunidade, como comprovam os estudos realizados pelas escolas superiores de Gestão e de Saúde do Politécnico de Santarém.

Maria de Lurdes Lopes/Lusa

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