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Comes & bebes – Comeres de Natal

Em Ribatejo Cool

No saudoso O RIBATEJO escrevi centenas de textos referentes à história da alimentação, artes culinárias, críticas gastronómicas em geral, e muitos textos alusivos aos comeres de Natal em particular. Escrever hoje sobre o tema Natal é arriscado, facilmente caímos em rotundas generalidades recheadas de lugares comuns, lacrimejantes de esterilidades saudosistas, repetidas ano após ano numa melopeia enchumaçada de ais e suspiros.

Na crista da onda da globalização e da vertiginosa mobilidade de pessoas e bens, os comeres de Natal, entendidos como símbolos da época é exercício arriscado na justa medida de produtos e receitas até aqui objecto de veneração caíram em desuso e outras vindas de mil paragens substituíram as anteriores. O mesmo se aplica às bebidas, pensemos na irrupção de champanhes e espumosos, de cervejas de inverno e sidras, de licores e águas de vida em detrimento do vinho doméstico, do bagaço e da aguardente, do aniz e da prosaica jeropiga. É a vida!

Os comeres da cozinha regional sofrem a concorrência dos fumados dos países nórdicos dada a democratização dos preços, as frutas locais têm dificuldades em se imporem às frutas exóticas, e às conhecidas via militares envolvidos na guerra colonial, desde caldeiradas de cabrito a merengues, passando por churrascos, caris mais ou menos puxavantes, caldos de peixes e preparados com mandioca vieram na memória dos combatentes, para lá de receituários multiculturais dos regressados contra a sua vontade.

O multiculturalismo gastronómico veio seja na versão genuína seja nas versões aumentadas ou diminuídas provocando alteridades culinárias em todos os segmentos cousa que para nós não é desconhecida desde os primórdios dos descobrimentos, se nos dermos ao trabalho de fazer uma pesquisa séria encontramos receitas em função de produtos chegados até nós através de vontades, acasos e astúcias de África, da Ásia, das Américas e da Oceânia. Dois exemplos: jesuítico glu-glu, embebedado à força com aguardente antes de ser assado no forno, agora vendido dentro dos parâmetros dos produtos planificados em cadeia comendo ração, e o doce sericaia. O peru é proveniente da América do Norte, o doce da Ásia.

Em face de tão estridente realidade o leitor faça o favor de consoar conforme lhe der na real gana, conforme o dinheiro que possa gastar, levando em linha de conta o ser uma noite destinada a ser um período de tempo onde perdure o sentimento de felicidade e bem-estar. Apesar da perda procurarei agarrar tão fugidio tempo.

Para beber proponho vinhos tranquilos e intranquilos da chancela TEJO.

Armando Fernandes

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