fbpx

Uma edição prodigiosa, de estalo: Arte e Ciência, por Paulo Pereira

Em Ribatejo Cool

Foi um dos acontecimentos editoriais mais arrojados dos últimos tempos do Círculo de Leitores: cinco belíssimos volumes da autoria do historiador Paulo Pereira em torno das interferências entre a Arte e a Ciência. A tentativa de cruzar os olhares entre dois conhecimentos aparentemente díspares não é de agora, e há mistérios que persistem: sabe-se que ainda há muito a decifrar sobre a arte paleolítica como a de Foz Côa, por exemplo. O historiador de arte lança-se no questionamento dos sistemas explicativos do mundo, o mesmo é dizer as narrativas sobre a criação do mundo e do homem. Todo o primeiro volume percorre a ordem celestial, a estética que se debruçou sobre as idades do mundo, as interpretações da Criação, assim chegamos ao cosmo medieval, a doutrinadores como Isidoro de Sevilha, aos estudiosos dos mosteiros, à revolução nos sentidos introduzida por um génio, Hieronymus Bosch, inevitavelmente iremos contemplar os caldeirões do Inferno e as tentações de Santo Antão; e depois das moléstias e pestes aposta-se nos caminhos para chegar ao céu, com bondade e misericórdia, por via das curas milagrosas, dos talismãs e das relíquias, sem esquecer a pedra de bezoar. E esta galvanizante viagem à Criação Divina e ao aparecimento humano desemboca na anatomia, nos humores e fluídos. A análise do historiador é de que antes de haver uma ideia acabada sobre Ciência a expressão artística deu corpo a esses sinais e manifestações, como ele escreve: “O que alguns artistas pintaram deve-se a uma vontade de se aproximarem de uma verdade absoluta, que tem mais de religioso do que de científico. Até mesmo a medicina praticada na Idade Média dependia da fé. Mas essas verdades faziam parte dos sistemas explicativos do mundo, como é o caso das narrativas da criação do mundo e do homem”. Não há conclusões acabadas, está tudo em franco desenvolvimento e pode mesmo perguntar-se se haverá dia em que se encontre explicação para o aparecimento do mundo.

O segundo volume é dedicado ao corpo, é uma lenta progressão que o historiador aqui regista de saberes pragmáticos em que se cruzam a química, a hermética, a farmacopeia, a botânica, a medicina e a anatomia que deram lugar a expressões artísticas: nas ilustrações, gravuras, peças de cerâmica e até na arquitetura, como estabeleceram um diálogo ilustrativo, de valor alfabetizante, para publicitar o medicamento, a alquimia, a anatomia. Pela mão de Paulo Pereira vamos até à alvorada da medicina, às boticas e boticários, que ele bem ilustra com a botica do Convento de Cristo, onde funcionou uma grande enfermaria e onde estava instalada a Botica Nova. Farmacopeia e alquimia é já um diálogo de civilizações, extravasa a Europa, invoca a cultura árabe e até a chinesa. Mas o autor interroga os químicos herméticos em Portugal, como São Frei Gil.

É nesta deambulação que o autor retoma a obra de Hieronymus Bosch, tão prenhe de simbolismo alquímico. Passamos para a química médica e para a farmacopeia, inevitavelmente que se dá espaço a um templo de saber e de tratamento a quem sofria, o Hospital Real de Todos os Santos, em Lisboa, aqui descrito com certo pormenor. E onde se fala dos barbeiros sangradores, os bisavôs da cirurgia e onde a Arte torna evidente a Ciência, o caso da Anatomia, pois o artista não podia pintar ou ilustrar ou gravar sem conhecer o essencial do corpo humano. Em dado momento, Paulo Pereira destaca que a cultura visual se apresenta como marcador civilizacional. Ao longo destes cinco volumes, o historiador exprime o seu olhar, sempre sem pretensões nem dogmatismos, como ele escreve: “Decifrar a Ciência na Arte e a Arte na Ciência acaba por ser um movimento de encadeamento perpétuo e desafio. Não é que seja sempre evidente esta conjugação: e por isso escolhi ainda a palavra ‘decifrar’ para falar desses objetos transitivos, belos ou enigmáticos”.

A digressão prossegue com mais três volumes: A arte como motor de descoberta e de ciência, volume que se intitula “Equações da Arte”. A este segue-se “A Descrição do Cosmo”, abreviadamente o autor diz-nos que desde os meados do século XV até ao advento do Iluminismo se deu o nascimento de uma arte de descrever povos, usos e costumes, animais, plantas e até fenómenos da Natureza. Este projeto do historiador de arte, sem sombra de dúvida singular, culmina com o quinto volume intitulado “Memórias e Engenhos”, aqui se elenca o conjunto de dispositivos visuais que o ser humano produziu, ao longo dos tempos, para facilitar a memorização de saberes e até mesmo o envolvimento da Engenharia com a Arte, que possibilitou a concretização de produções artísticas de grandes dimensões.

Acontecimento editorial, cinco volumes irrecusáveis para bibliófilos e para quem gosta de edições requintadíssimas a preço abordável.

Beja Santos

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Recentes de Ribatejo Cool

Ir para Início