Ano Velho

Em Opinião

No fim de cada ano costumo reflectir sobre os momentos de alegria e tristeza a marcarem o ritmo dos dias neste vale de lágrimas para a maioria dos contribuintes, enquanto uma caterva de moinantes gargalha alarvemente porque «dos enganos comem os escrivães» assim se dizia no tempo da outra senhora. Nos tempos correntes poucos sabem qual é o papel de um escrivão dado a escrita ser teclada, para lá das funções fazerem parte do mistério da lentidão da justiça em vigor no reino do outrora rei cognominado o Clemente. Qual era o rei?

Por puro acaso soube do falecimento do distinto advogado escalabitano Martins Leitão, além de ser um homem bom, aliava essa virtude à de cidadão defensor da democracia e sem fundamentalismos ridículos e espúrios da justiça social e igualdade oportunidades. No ano a extinguir-se dentro de sete dias deixaram este Mundo várias pessoas merecedoras do meu respeito e admiração. Uma delas foi o jornalista Rogério Rodrigues, o seu filho Tiago recentemente galardoado com o prémio Pessoa em entrevista dada ao Expresso lembra o Pai de forma serena, mansamente, colocando a ênfase na sua inteireza de carácter e na rijeza transmontana. O Rogério já não viveu o suficiente para ver e ouvir aquilo que sempre soube, o filho é um fora de série intelectual.

O ora velho Ano demonstrou quão rápida tem sido a alfabetização da população portuguesa no tocante à ciência futebolística, durante toda a semana um chusma de catedráticos explica ao pormenor os jogos e seus labirintos provocando esgares de admiração em todos quantos elogiavam a simplicidade e beleza do jogo. Aumentam os sábios do pontapé na bola numa crescente infantilização, aumenta a iliteracia contrariando as estatísticas burocráticas, verdade seja dita, aumentam os investigadores nas áreas das ciências puras, aplicadas e sociais, o busílis da questão centra-se no vulgarização do vácuo, na ausência de pensadores sérios, atentos e claros (temos Adriano Moreira. António Barreto, Eduardo Lourenço, A. Guerreiro e., e., e…).

As narrativas tornaram-se mais vivas e menos profundas, menos cálidas e mais irritantes, mais vis e menos nobres. Em resumo esta áspera dissonância, a permanente lassidão da vida partidária levam-me a despedir-me de 2019 sem saudades, com o azedume de o ver partir sem ser convenientemente castigado.

Bom Ano Novo desejo aos leitores.

Armando Fernandes

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