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Uma agenda para leitores refinados de intermináveis enredos

Em Ribatejo Cool

No mundo editorial há uma vertente de negócio que puxa todos os cordões à imaginação, o fazer agendas altamente apetitosas. Daí as agendas fulgurantes com obras de arte, ídolos da canção, viagens marítimas, com ou sem a epopeia dos Descobrimentos. São agendas que concorrem com aquelas publicações muito sóbrias, umas de bolso, outras de secretária onde anotamos compromissos ou obrigações vindouras.

A Quetzal lança no mercado um empreendimento singularíssimo e escolheu para o cinzelar uma escritora e crítica literária, Helena Vasconcelos. Acometeu-se a autora a tarefa de alto risco. Esta agenda literária que menciona “Uma entrada para cada dia do ano, um guia que poderá ajudar a medir o tempo e a aproveitá-lo com o máximo prazer, através de leituras e meditações”, é uma maravilha, temos romance, novela, poesia e ensaio para todo o ano, uma aventura interminável que decorre a anotações de grande fascínio. Não é só o enriquecimento quotidiano, do género de Vasco Graça Moura ter nascido a 3 de janeiro; janeiro fala-nos da mais importante obra de Mary Shelley, Frankenstein, o primeiro romance de ficção científica, vamos ficar a saber um pouco mais sobre a criação deste monstro e o seu significado subjacente. Uns nascem e outros morrem. Miguel Torga morre a 17 de janeiro, a autora distingue-o: “Escritor da natureza bravia e (quase) indomável, amante de fragas e despenhadeiros, da rudeza da paisagem e das pessoas que a habitam”. A 21 desse mesmo mês, em 1903, nasceu Eric Arthur Blair, o George Orwell do incontornável 1984. O calendário não se cinge a nascimentos nem a obituários, há eventos, a 29 de janeiro de 1845, é publicado em Nova Iorque O Corvo de Edgar Allan Poe, “Fez escola pelo ritmo, pela musicalidade e pela evocação de uma atmosfera sobrenatural com grande impacto na imaginação dos leitores”.

Dobramos o mês, e quem melhor para o interpelar senão o imperador da língua portuguesa, tirado dos sermões do Padre António Vieira temos O Amor Fino: “O amor fino não busca causa nem fruto. Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: e o amor fino não há de ter porquê nem para quê. Se amo, porque me amam, é obrigação, faço o que devo: se amo, para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? Amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam é agradecido. Quem ama, para que o amem, é interesseiro: quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, só esse é fino”. Este portentoso trabalho de recolha respeita todas as colorações políticas, atravessa continentes, reabilita quem justamente está esquecido. A 20 de fevereiro de 1888 nasceu em Paris Georges Bernanos, legou-nos obras valiosas como Diálogo das Carmelitas ou Diário de um Pároco da Aldeia. E faça-se justiça a David Foster Wallace, romancista, ensaísta e professor de Escrita Criativa, nascido em Nova Iorque a 21 de fevereiro de 1962, lutou toda a vida contra a depressão, a ela se rendeu.

A 8 de março de 1915 nasceu em Londres Ruy Cinatti, agrónomo, meteorologista e antropólogo, um poeta quase inclassificável que é muito amado em Timor, cuja ocupação pela Indonésia o deixou à beira da loucura. A 16 do mesmo mês, em 1825, nasce em Lisboa Camilo Castelo Branco, se é um lugar-comum dizer-se de alguém que aquela vida dava um romance, Camilo tem o primeiro lugar no pódio, desde as primeiras letras até aos últimos meses de vida, a cegueira e a depressão levaram-no ao suicídio. No dia 29 de março de 1966 o agente da Polícia Judiciária Henrique Parente redigia um relatório no qual se lia: “Consta estar à venda e em circulação um livro pornográfico, protótipo de desmoralização”. Era A Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade, terceiro livro da editora Afrodite, fundada por um jovem portuense radicado em Lisboa, Fernando Ribeiro de Mello. Foi o início do segundo processo por edição de obras consideradas obscenas.

Estamos em abril, vamos ser mimoseados pela poesia avassaladora, telúrica, de T. S. Elliot. Em 18 desse mês, um tribunal federal decide libertar o poeta Ezra Pound do St. Elizabeth’s Hospital for the Criminal Insane, onde tinha sido encarcerado no fim da II Guerra Mundial por traição: Pound, o poeta do modernismo, apoiou a causa fascista em Itália e nunca abandonou as ideias antissemitas. Em 27 de abril de 1719, Robinson Crusoé, o famoso romance de Daniel Defoe, é publicado como sendo uma autobiografia do famoso náufrago, preso numa ilha durante vinte e oito anos.

O mês de maio abre com um soneto de Vinícius de Moraes. No dia 10 desse mês, em 1939, nasce em Lisboa a poeta Luiza Neto Jorge. Em Faro, onde começou a dar aulas, fez parte de um grupo de artistas e escritores como José Afonso, Gastão Cruz, Casimiro de Brito e António Ramos Rosa, que se reuniam no Café Aliança. Teve um papel de destaque no movimento Poesia 61. Foi também tradutora, argumentista de cinema e artista plástica.

Versos camonianos abrem o mês de junho, logo no dia 1, em 1937, nasceu a romancista e neurocientista australiana, Colleen McCullough, autora do famoso romance Pássaros Feridos, uma saga complexa de amores, traições e lutas no cenário selvagem e belo da Austrália. A 17, em 1944, em Viseu, nasceu António Franco Alexandre, matemático, filósofo e poeta, é doutor em Filosofia, pela Universidade de Lisboa, onde leciona.

Em 15 de julho de 1919, nasceu em Dublin Iris Murdoch. As tramas psicológicas sobre o mal, o ciúme, o sexo e os dilemas morais constituem a base dos seus romances. Embora a fama como romancista tenha decrescido depois da morte, a sua importância como filósofa – principalmente a reinterpretação que fez de Platão e Aristóteles – tem crescido. A sua ‘filosofia da moral’ é dirigida não para as questões da vontade e da escolha, mas para a atenção moral – como as pessoas aprendem a olhar para os outros e para si próprias.

Quem ama a literatura, a ela está atada de pés e mãos, vai andar com esta agenda por onde quer que seja, é um alfobre de histórias e ao lado o amante das belas literaturas apõe recados, a data de eventos, a roda da sua fortuna. Mas que grande agenda que nos deu Helena Vasconcelos!

Beja Santos

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