Fim do ano, fim do medo; ano novo, coragem nova!

Em Opinião

Arrumamos o ano velho num baú do sótão e tapamos desagrados com mantas velhas. Entramos com o pé direito porque os imperadores romanos foram os “donos disto tudo” tal como os seus atuais líderes chamam a esquerda de sinistra. Passando a linguagem algo prosaica; em verdade a palavra vem do latim, sinistram, do qual o português é “filho” tal como o italiano.

Historicamente, quase sempre fomos obedientes a imperadores e ditadores; assumimos então a superstição do sinistro indesejável, o mau prenúncio de que a consequência dos atos poderia convocar forças ou resultados adversos. Então temos de entrar sempre com o pé direito!

Isso, entremos de piede destro, para que o futuro nos sorria mesmo que para isso façamos pouco.

Quem tentou entrar com piede destro, mesmo que sem convicção supersticiosa, foram Manuel Serra e João Varela Gomes que, com outros revoltosos e apoio de Humberto Delgado, tentaram tomar o quartel de Beja na noite de 31 de dezembro de 1961. Piede destro na coragem, piede destro de quem escolhe que quer um futuro melhor. Piede destro da gente simples que acha valer a pena arriscar, piede destro de quem perde o medo.

Se a manhã do novo ano aparentemente não sorriu aos insurgentes isso foi mesmo aparência. Talvez por ser aquele tempo sem telenovelas, futebolização alienada, shows musicais com papas e bolos para “enganar tolos”, Facebook, Whatsapp ou Instagram (…) aquela sementinha da revolta de Beja “fecundou” novas revoltas como as dos campos do Ribatejo.

As sementinhas de um piede destro na vida andaram sempre por terras de Benavente, Salvaterra de Magos, Coruche, Couço, Alpiarça, Santarém, Vila Franca de Xira, Riachos; Vale de Figueira, Vale de Cavalos…

Um ano prenderam 110 trabalhadores agrícolas – mas eles não se submeteram -, nem ao medo, nem à fome! As sementinhas que eram esmagadas pela bota da ditadura logo nasceriam em outro lugar procurando o sol radiar, visitando os seus companheiros de jornada de trabalho de sol a sol.

As sementinhas de um piede destro fizeram-se fortes no ano novo de1962 e conquistaram a jornada de trabalho de 8 horas diárias para os trabalhadores agrícolas.

Arrumemos o ano velho, a apatia e o medo, num baú do sótão!

Lancemos as sementinhas à terra para que neste ano novo germine coragem nova. Os amigos que lançaram as suas sementinhas na revolta de Beja de 1961 vão gostar de ver que somos gentes de esperança!

Vítor Franco

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*