fbpx

A busca de sentido é um tesouro que não está à venda no mercado

Em Ribatejo Cool

Álbum mais terno não nos podia ter deixado Shel Silverstein. Ele que foi escritor, poeta, dramaturgo, ilustrador, cartoonista e cantor, norte-americano, e cujos livros para crianças estão profusamente traduzidos em mais de trinta línguas, que recebeu dois Grammys (por um dos seus livros infantis e uma gravação de um outro), deixa nesta obra uma tocante prova de um dos aspetos capitais da essência humana que é a busca de sentido e o apelo à realização. O pedaço que falta, Bertrand Editora, 2019, é uma fábula de cunho universal. Alguém que reconhece que lhe falta um pedaço e não é feliz, e parte à procura do que lhe falta, vai caminhando ao ritmo das estações, conversando, cheirando as flores, atravessando oceanos, florestas, subindo montanhas. Até que, maravilha das maravilhas, encontrou exatamente o tal pedaço, pensava ele. Porque o pedaço reagiu, disse que tinha identidade própria. Ele continua à procura do seu pedaço, parecia que em vão, o que encontrava tinha outras formas, inadequações, resultava tudo em procuras e perdas. Insistia e falhava. Viveu aventuras, caiu em buracos, esbarrou. Até que certo dia encontrou um pedaço que encaixava bem, pôs-se a cantarolar e descobriu que estava inteiro mas tinha perdido as faculdades do tempo em que procurava o pedaço em falta. Despediu-se do tal pedaço que lhe encaixava bem mas que o mudara e percebeu, com rara felicidade, que a natureza humana é mesmo assim, há que buscar e caminhar contente pela vida fora, descobrir as medidas da nossa realização é o sal da terra, graças ao sentido da vida que desfrutamos.

A fábula deste livro é a realização, o aprender a viver, a tirar partido da tenacidade, das agruras, a saber contar com a individualidade e o seu abraço ao incomum. Nessa viragem histórica dada pela Idade das Luzes, fomos aprendendo a olhar o humanismo com uma outra liberdade de consciência, pese embora que, em muitas dimensões estamos a viver uma certa forma da divinização do humano, um sagrado de rosto humano, o que nada tem a ver com ideais da salvação em ideologias de diferentes espetros. O que se exalta nesta fábula não é aquela forma de felicidade que veio a ser cantada pelo individualismo, a felicidade associada à ausência de sofrimento em que só o indivíduo é que conta para a sua realização. No livro A Ditadura da Felicidade, de Edgar Cabanas e Eva Illouz, Temas e Debates e Círculo de Leitores, 2019, apreendemos que a realização é uma coisa e que a felicidade forjada pelo neoliberalismo é uma outra coisa: aquele que procura a parte que falta busca sentido; a ditadura da felicidade é uma pura invenção ideológica, coincidente com o aumento exponencial da incerteza no mundo do trabalho, a instabilidade económica, a crescente mercantilização do simbólico e imaterial, incluindo identidades, sentimentos e estilos de vida. Aquele que busca a realização não está maniatado pelos imperativos da sedução que presidem à tirania individualista, onde se pretende camuflar que felicidade é politicamente neutra, é mesmo boa desde que faça bem e seja veículo de autorrealização para o indivíduo.

A busca de sentido é o trilho permanente de quem caminha ciente de que a realização é um processo inacabado. A felicidade enquanto conceito de mercado é pôr um indivíduo a correr, a escorraçar os outros pela competição, a aceitar que a flexibilização é incontornável, porque tal felicidade vai ao encontro das exigências económicas e organizacionais que são o timbre do capitalismo neoliberal. Na busca de sentido reconhece-se à pessoa a liberdade de escolha, o seu papel no bem-estar coletivo. Na ditadura da felicidade vive-se na cultura do empreendedorismo, a ser resiliente e a centrifugar a concorrência. Para alcançar a felicidade é preciso viver-se num processo de luta e autoajuda, numa atmosfera acética de cidadão funcional e feliz. Ora quem procura o pedaço que falta e depois de muita procura entende que essa falta é louvável, que o triunfo não é mesquinho, esse sentido da procura ou da realização humana, onde é próprio haver altos e baixos, autocontrolo mas também ceticismo, e é por isso que este esplêndido álbum é uma alavanca anímica para continuar a buscar, pela vida fora. Ao contrário da ditadura da felicidade que procura convencer-nos que a riqueza e a pobreza, o êxito e o falhanço, a saúde e a doença são única e exclusivamente da nossa responsabilidade, quem caminha para se realizar sabe que a responsabilidade é múltipla, que a identidade é a molécula indispensável da comunidade.

Faltava-lhe um pedaço. E não era feliz. Por isso partiu em busca do pedaço que lhe faltava. Buscou muito, em toda a parte, desceu vales e subiu montanhas. Até que um dia encontrou a alegria de saber que ele era muito mais do que o pedaço que faltava.

De leitura obrigatória, para adultos e crianças.

Mário Beja Santos

Leave a Reply

Recentes de Ribatejo Cool

Ir para Início
%d bloggers like this: