Suicídio em idade activa II

Em Saúde

A presente crónica, bem como a anterior e a que se seguirá, é resultante da selecção de algumas passagens do estudo epidemiológico ‘Influência da taxa de desemprego no suicídio em população em idade activa em Portugal no período de 2014 a 2017’, da minha autoria.
Não são apenas as doenças a influenciar o fenómeno do suicídio, mas sim todos os factores que podem levar ao agravamento ou despoletamento de doença mental (OMS, 2014).
Relativamente à idade, o padrão é o suicídio de jovens adultos nos países de renda baixa, devido à inequidade e cuidados de saúde pouco acessíveis e de má qualidade. Na segunda e terceira décadas de vida, o suicídio é mesmo a segunda causa de morte (ultrapassada pelos acidentes de viação). O outro padrão é o suicídio de indivíduos de meia idade ou idosos, tendencialmente nos países mais desenvolvidos. Cruzando idade e desemprego, os indivíduos mais velhos também acumulam mais factores de risco. Os desempregados, sobretudo os mais velhos, não procuram emprego pela falta de ofertas disponíveis, pela desmotivação e pelo desconhecimento dos meios para o procurar (Bachmann, 2018).
O sexo masculino tem uma taxa superior de suicídio (cerca de 3,4 vezes superior), apesar de menor taxa de tentativas de suicídio. Para Mergl e colaboradores (2015) esse facto não é influenciado pela idade ou o país de ocorrência, mas sim pelo facto de os homens escolherem métodos mais eficazes (acesso a armas de fogo, melhor conhecimento da técnica de enforcamento, etc), estarem mais isolados, terem uma menor preocupação com a imagem corporal e serem maiores consumidores de álcool e drogas.
Kyung-Sook e colaboradores (2018), numa meta-análise, constatam que o risco de suicídio é superior em indivíduos não casados, especialmente em homens com menos de 65 anos. Para mulheres acima dos 65 anos não existe associação estatisticamente significativa entre estado civil e suicídio.
A globalização veio requerer níveis de escolarização elevados para satisfazer as necessidades do mercado de trabalho, estando o desemprego ligado a fracas competências escolares. É duas vezes mais elevado entre os adultos com níveis de qualificação mais baixos. Sempre que há uma mudança do mercado de trabalho, os trabalhadores pouco qualificados ou com competências obsoletas são os grandes perdedores, porque são marginalizados (Rodrigues, 1996).
Para além dos factores intrínsecos aos indivíduos, o plano sócio-económico do local onde habitam também exerce influência na taxa de suicídio.
Alguns destes factores serão abordados numa próxima crónica.

André Arraia Gomes

Nota do autor: Por uma questão de espaço, apenas referencio o autor e ano das fontes bibliográficas, dada a quantidade e extensão das mesmas.

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