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“Traga uma orelha de Pedro Sanches” – uma novela policial fascinante

Em Opinião

O escritor Jacinto Rego de Almeida

Acabei de ler o novo livro de Jacinto Rego de Almeida. E confesso que foi uma agradabilíssima leitura a fruição deste “Traga uma orelha de Pedro Sanches”. Novela policial de surpreendente narrativa que nos devolve o retrato de uma sociedade contemporânea onde o mal é coisa banal – não apenas entre criminosos – e a justiça uma inquietante vacuidade.

Afinal, todos trazemos em nós a possibilidade de fazer o mal. E este é um livro que retrata de modo magistral esse lado malévolo que, lentamente, transfigura o protagonista do enredo, e narrador; figura central com que inicialmente simpatizamos, quase de forma incondicional, para depois nos horrorizarmos com a perversa frieza dos seus homicídios.

A estória decorre entre Portugal, na cidade do Porto onde o mulato José Elias, descendente do régulo Gungunhana, tem escritório de advogado montado, e a cidade de Fortaleza, no Brasil, onde se refugia com passaporte falso, para escapar ao cerco de um certo inspetor da judiciária racista que acabará mal, enquanto estreia da primeira degola do nosso Elias vingativo; ele que também tem uma passagem menos feliz por Madrid onde conhece os calabouços da polícia por causa de um homicídio alheio, a que o passaporte falso o associava.

No deambular de Elias vão-se cruzando personagens singulares: a Miss com quem partilha cama e casa, o general angolano que filosofa sobre a morte, o assassino Paulo Maluco, o bufo “ranhoso” da judiciária ou o Matias falsificador e pederasta, todos aparentemente banais, só aparentemente.

A escrita de Rego de Almeida tem uma estética cativante, de recursos linguísticos, temáticos e ideológicos onde o humor também aflora. Logo na primeira página, por exemplo, quando hesita entre três inícios possíveis, a lembrar Machado de Assis nas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, onde o “defunto-narrador” também vacila entre começar pelo dia do seu nascimento ou pelo dia da sua morte.

Depois da empolgante leitura deste livro, só quero redimir-me do meu pecaminoso desconhecimento da já vasta obra literária de Jacinto Rego de Almeida, publicada pela Ulmeiro.

Assisti à apresentação do livro “Traga uma orelha de Pedro Sanches” na Sociedade Recreativa Operária de Santarém, onde a apresentação esteve a cargo do sempre prolixo José Miguel Noras, que nos falou mais do autor – e bem – e menos da obra, que merece seriamente ser visitada.

Joaquim Duarte

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