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Santarém, cidade de aparências

Em Opinião

As décadas que levo de vivências no burgo scalabitano consolidaram em mim uma imagem da cidade em que conta mais o parecer do que o ser.

Santarém sempre transmite uma imagem de cidade individualista no sentido negativo da palavra e uma cidade de individualidades. Com indivíduos e individualidades sem chegar a ser uma comunidade.

Quase sempre Santarém indicia-se como um lugar de pequenos lugares, onde cada grupo se encerrava na sua zona de conforto como agora se diz. Na cultura, como no desporto, como até nos grupos de dadores de sangue, o alheamento e até a competição entre nós sobrepõe-se à cooperação e à entreajuda.

Santarém melhorou muito a sua vida associativa, principalmente no desporto, em particular depois de caírem as ilusões em altos voos. Essa melhoria deve-se a muita dedicação, mas mais poderia progredir se fosse melhor a comunicação entre todos.

Um dos obstáculos ao crescimento e afirmação da cidade é o predomínio cultural e político de uma “elite” conservadora, “bem composta”, que se afirma a vestir traje de agricultor em dias festivos. A pretensão identitária soa sempre a falso como falsa é a imagem unilateral de que o Ribatejo é terra de campinos e touros.

Oiço queixas crescentes e contínuas de que Santarém é uma cidade morta; lideranças políticas prometem, eleição após eleição, há pelo menos 30 anos, torná-la viva mas sempre tomam as decisões contrárias.

Em Viagem a Portugal, Saramago escreveu:

Santarém é cidade singular. Com gente na rua ou toda metida em casa, dá sempre a mesma impressão de encerramento. Entre a parte antiga e os núcleos urbanos mais recentes não parece haver comunicação: está cada qual no lugar onde foi posto e sempre de costas voltadas. O viajante reconhece uma vez mais que se tratará de uma visão subjectiva, mas os factos não desmentem, ou melhor, confirma-o a ausência deles: em Santarém nada pode acontecer, seria outro palácio da Bela Adormecida se soubéssemos onde encontrar a bela”. (SARAMAGO, 1997, p. 249)

Durante meses coordenei um programa de rádio chamado “Diálogos na Comunidade”. Foi tarefa conseguida e gratificante. Esses programas de rádio só procuraram mostrar bons exemplos do que se faz bem na nossa terra e esse desiderato foi conseguido.

O segredo desta terra está em perceber que pode ser uma cidade normal – é ridículo querer estar sempre a inventar que somos os maiores nisto ou naquilo. O segredo está em sermos gente que comunica e dialoga, de gente que sabe ser solidária sem ser fingida e isso é que é importante. Aparentar-se importância é que não tem importância nenhuma!

Vítor Franco

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