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Anda um espetro pelas democracias – o espetro do Populismo

Em Opinião

Subitamente, os partidos populistas ganharam amplo espaço no tablado político, são contra a migração, prometem pôr fim à corrupção, são xenófobos, em muitos casos camuflam habilmente o racismo, o nacionalismo, o liberalismo selvático subjacentes aos seus ideais. É um fenómeno que, na Europa, pesou no Brexit, no movimento dos «coletes amarelos», tem peso no Leste da Alemanha, na Liga Norte em Itália, na Áustria, na Polónia, na Hungria, ganha alguma evidência em Espanha e em Portugal. Quem estuda este fenómeno político inquietante associa-o à globalização, ao desemprego, a incompatibilidades religiosas, à insinuação de que está para breve um conflito de civilizações.

Como Perder um País, os sete passos da democracia à ditadura, por Ece Temelkuran, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2019, é um corajoso ensaio de uma jornalista e romancista turca, colunista política na imprensa internacional, que disserta longamente sobre o que aconteceu à Turquia, hoje uma ditadura, um longo itinerário que fez com que um país que obtivera a laicidade, a europeização e a consolidação de instituições democráticas tivesse sido abafado pelo Partido da Justiça e do Desenvolvimento que se apresentou como o povo real, o partido do respeito, do islamismo e progressivamente asfixiasse a democracia tratando todos os oposicionistas como terroristas. Mas Recep Erdoğan, o ditador turco, tem enormes semelhanças com Trump, com Viktor Órban, bem como com todos os outros populistas que odeiam a migração, os outros credos religiosos, o Estado Social, a multiculturalidade. Não possuem, os populistas, uma estrutura ideológica consistente mas estão todos unidos na mesma forma de apresentação: atacam o caráter do adversário em vez de refutar a substância do argumento do adversário; apelam à ignorância, afirmando que uma proposição é verdadeira porque ainda não foi refutada, entre outras falácias. Quem com eles trabalha e depois deles discorda e se afasta, vem depois denunciar infantilidades, raivas dementadas, abissais faltas de cultura, oscilação permanente de opiniões, consideram-se génios intuitivos, hábeis na comunicação, falando quase sempre em frases curtas para hipnotizar as massas.

Ece Temelkuran considera que este processo se iniciou em 1979 com Margaret Thatcher, a senhora que dizia não haver alternativa, que comunicava através de um vocabulário político generalista, matraqueando com o uso e abuso de palavras como “visão”, “inovação”, “flexibilidade” e “motivação”, ignorando conceitos sólidos do passado como “solidariedade”, ou “justiça social”. A senhora Thatcher teve um aliado oportuno do outro lado do Atlântico, Ronald Reagan, que fascinou os eleitores com o slogan “Vamos tornar a América grande outra vez”. E assim nasceu a voz da política populista infantil que parece saída dos contos de fadas, e elevam os media a adversários, rapidamente, mal ascendem ao poder, cercam-se de servidores obedientes e vão estabelecendo o caderno dos inimigos gradualmente a abater. Estranhamente, encontram apoios imprevistos que se deixam impressionar pelas promessas que os populistas fazem, que vão abanar o sistema corrupto. Na prática, os populistas gostam de construir o seu poder num mundo de pós-verdade, põem agentes provocadores nas redes sociais e nos órgãos de comunicação que dominam a infamar os seus adversários, urdem uma verdade alternativa enquanto gritam em público que estão a limpar as instituições de gente que ataca o seu povo real.

Os populistas anseiam controlar ou, se necessário, derrubar os mecanismos judiciais e políticos. Têm conceitos económicos e financeiros que permitem uma total liberdade de ação a qualquer tipo de capitalismo de feição selvagem, estão prontos a reduzir investimentos na Saúde e na Educação, por isso é ponto assente que populismo é ultraliberalismo, ódio ao setor público e à solidariedade social, as pessoas que se amanhem. A máquina de propaganda populista está permanentemente a clamar contra o Estado supérfluo. Sempre que é necessário fingir que existem eleições livres há o cuidado de argumentar que são uma mera formalidade, uma mera questão de aprovar o direito do líder a continuar a gerir o país e a distribuir o erário público pelos seus apoiantes. Essa mesma máquina propagandística vai descobrindo terroristas internos, antipatriotas. E a autora faz-nos entrar diretamente na Turquia para vivermos o pesadelo do que foi um país de ideias arejadas, tolerante, laico, reduzido ao despotismo de Erdoğan.

No final, e não escondendo a melancolia, a autora escreve: “Hoje há muita gente que se vê a dizer que ‘Este já não é o meu país’: nos EUA, na Hungria, na Polónia, na Alemanha, na Grã-Bretanha e em muitos outros locais. Ficaram familiarizados com a sensação de imobilidade, mas ao mesmo tempo de sentir a terra a mexer por baixo dos pés. É como se o grande plano para o país tivesse mudado de um dia para o outro. Aquilo que poucas pessoas se apercebem, no entanto, é como, assim que é proferida a frase ‘Este já não é o meu país’, transforma não só o indivíduo que a diz mas também o país. A história do que acontece às pessoas quando deixam o seu lar e se tornam estranhos em terras estranhas já foi contada muitas vezes, mas aquilo que acontece a um país quando os seus cidadãos partem nunca é debatido. É como se o país fosse considerado inviolável, a menos que o território propriamente dito seja destroçado”.

Como Perder um País alerta-nos para um facto de o populismo e o nacionalismo não chegarem ao poder na sua forma definitiva e reconhecível: uma vez instalados, vão-se revelando sorrateiramente. A autora tem o mérito de ir identificando os sintomas precoces do fenómeno que vai ganhando proporções globais e apela a que nos dotemos de ferramentas para o erradicar.

Mário Beja Santos

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