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Suicídio em idade activa (III)

Em Saúde

A presente crónica, bem como as anteriores (I e II) e a última que se seguirá (IV), é resultante da selecção de algumas passagens do estudo epidemiológico ‘Influência da taxa de desemprego no suicídio em população em idade activa em Portugal no período de 2014 a 2017’ da minha autoria.
Para além dos factores intrínsecos aos indivíduos, o plano sócio-económico do local onde habitam também exerce influência na taxa de suicídio.
A grande maioria dos suicídios (78%) ocorre em países de renda baixa ou renda média. Um aumento da taxa do suicídio verificou-se durante: a Grande Depressão nos USA; a crise económica russa após a queda da União Soviética; o aumento repentino do desemprego dos anos 1970 e 2007 na Europa (Bachmann, 2018).
Os cinco anos de recessão económica e austeridade na República da Irlanda (que teve um programa de resgaste, tal como Portugal) tiveram um impacto negativo significativo na taxa de suicídio nos homens (Corcoran et al., 2015). Na Irlanda, no final de 2012, a taxa de suicídio nos homens era 57% mais alta do que a tendência pré-recessão. Tal correspondia a um aumento da taxa em 8,7 por 100 000 (intervalo de confiança 95%: 4,8-12,5). Já a taxa de suicídio no sexo feminino praticamente não se alterou. Em Portugal, a taxa de suicídio aumentou aproximadamente 23% entre 2007 e 2014, de 9,5 para 11,7 por 100 000 habitantes (Nunes, 2018).
Wilkinson e Marmot (2003) constatam que uma elevada taxa de desemprego conduz a degradação da saúde e até a morte prematura quer do desempregado, quer dos elementos da sua família. Stuckler e seus colaboradores (2011), a propósito da crise de 2007, demonstraram uma correlação positiva entre desemprego e suicídio: por cada aumento de 1% de desemprego, a taxa de suicídio aumentava em 0,79% . Ramalheira (2013) aponta que, em Portugal, esse aumento pode ser um pouco mais acentuado (3,5%).
Já Ayuso-Mateos e colaboradores (2013) constatam que, face à magnitude de aumento da taxa de desemprego em Espanha e Portugal no período da recente crise económica, o efeito na taxa de suicídio deveria ter sido mais acentuado. Wu e Cheng (2010) poderão explicar esse fenómeno, já que argumentam que o impacto psicológico provocado pelo desemprego pode ser reduzido nos tempos de recessão, quando o desemprego se torna “socialmente aceitável”. Outra explicação, especialmente se comparados com dados norte-americanos, é que a crise nos USA foi imobiliária, levando ao desajolamento. Tal fenómeno não teve semelhante impacto em Portugal.
André Arraia Gomes

Nota do autor: Por uma questão de espaçamento, apenas referencio o autor e ano das fontes bibliográficas, dada a quantidade e extensão das mesmas.

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