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A nêspera, a “Casa do Relojoeiro” e a Torre das Cabaças

Em Opinião

A venda da “Casa do Relojoeiro”, pela Câmara Municipal, provocou intensa polémica na cidade. As redes sociais ficaram prenhes de indignação.

Falemos claro.

1. A venda foi aprovada por unanimidade (PSD+PS) na reunião de Câmara de 1 de agosto. Como a lei estipula, estas vendas têm de ser depois aprovadas na Assembleia Municipal; nesta manteve-se a inclinação maioritária já expressa na Câmara.

A interessante proposta coordenada pelo arquiteto José-Augusto Rodrigues, do tempo em que a Câmara era do PS, foi agora aniquilada também pelo próprio PS.

2. A casa, em ruínas, cujo teto abateu, tem um valor emocional e patrimonial para a cidade. Esse valor não decorre só de estar encostada à Torre das Cabaças, monumento nacional, mas também a um resto da muralha defensiva que ligava à antiga Porta de Alporão ou Porta de Alpram. Essa muralha [foto anexa] foi sempre tratada como um pedaço qualquer de parede [tem 2,25 m de largo] e nem sequer uma pequena placa mereceu.

3. A recuperação da casa está condicionada aos termos legais instituídos em particular por se situar em centro histórico e junto a monumento nacional. Consumada que está a venda esperemos que as instituições, em particular a CMS, funcionem. Conheço um exemplo interessante: na Guarda, o edifício do Hotel Santos está integrado na antiga muralha da cidade. A sua reconstrução deu origem a um edifício bonito e de património preservado.

4. Se é verdade que a casa tem um valor emocional e patrimonial para as e os scalabitanos também é verdade que a maioria da população da cidade já lá passou e nada lhe ligou. Trata-se da responsabilidade democrática e cidadã, ou da falta dela! É uma dificuldade quando a maioria da população scalabitana se alheia da vida na terra em que vive, ao fazê-lo dá mais espaço e mão livres aos desmandos do executivo e do presidente da Câmara.

5. Note que nas últimas eleições autárquicas só votaram 53,7% dos eleitores. Assim, com 11 997 votos de 51 718 eleitores o PSD teve maioria absoluta. É fácil protestar no Facebook e no café, mas quando as pessoas se demitem das suas responsabilidades não podem esperar milagres.

6. Mário Henriques Leiria escreveu em “Novos Contos do Gin”:

Uma nêspera/ estava na cama/ deitada/ muito calada/ a ver/ o que acontecia

chegou a Velha/ e disse/ olha uma nêspera/ e zás comeu-a

é o que acontece/ às nêsperas/ que ficam deitadas/ caladas/ a esperar/ o que acontece.”

7. No século XVIII foram colocadas 8 cabaças na Torre para sinalizar as cabeças ocas dos vereadores. No século XXI o desafio é o de substituir as cabeças!

Vítor Franco

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