O estranho caso do aeroporto do Montijo

Em Opinião

A não ser que sejamos versados nas matérias ou saibamos a opinião divergente de especialistas, há decisões políticas cuja racionalidade é de tal maneira notória que, por prudência e autoprotecção, nos devemos abster de produzir a mais singela das censuras. Por seu turno, também existem veredictos cuja lucidez aparenta estar tão ausente do processo deliberativo que, se não formos felizes detentores de particulares e pormenorizados conhecimentos acerca do assunto, não há como não ceder ao juízo crítico e salientar o evidente absurdo.

Ora, dado o actual contexto português, o propósito de edificar um novo aeroporto enquadra-se na primeira situação que acima descrevi. Já a firmeza na escolha do Montijo para sediar a estrutura, como o leitor correctamente infere, apresenta-se de desafiante compreensão. Por consequência, sendo um leigo, não resisti a recolher as informações circulantes e a concluir que estamos perante um insulto ao bom senso. Porquê?

Vejamos:

  1. O governo resolveu construir o aeroporto no Montijo, sem ouvir a APA – Agência Portuguesa do Ambiente -, e anunciou-o como se fosse um facto consumado;
  2. Sabendo-se que o encetar de tamanha obra depende sempre de um parecer positivo da aludida entidade pública, e questionado sobre o tema, o governo, pela boca de um desconfortável António Costa, respondeu que esta era a sua opção, mas que respeitaria os condicionamentos que resultassem da avaliação de impacte ambiental;
  3. Fomos inteirados de que, por força das alterações climáticas, existem enormes probabilidades de, até 2050, o futuro aeroporto inundar;
  4. Diversas instituições pronunciaram-se sobre a excessiva — e desnecessária, diga-se — complexidade inerente ao erigir de um aeroporto na zona determinada para esse fim, quando há possibilidades igualmente bem-situadas e menos onerosas;
  5. Com efeito, de todas as possibilidades, esta é a mais cara;
  6. A ANAC – Autoridade Nacional de Aviação Civil – advertiu para as vexatórias carências do projecto de edificação, que inclui pistas inadequadas para a aterragem de algumas aeronaves que transitam na e pela abóbada celeste; e
  7. Recentemente, a APA conferiu o seu assentimento à construção do aeroporto no Montijo, desde que sejam supridas as debilidades do projecto, enfatizando que este exige elevados investimentos para escudar o ambiente e, de idêntica forma, para garantir a segurança de pessoas e bens.

Tudo ponderado, fico com a sensação de que o “rei vai nu”! Não se consegue descobrir um módico de racionalidade subjacente ao triunfo do pior dos locais que estavam em discussão. Isto é ridículo! É uma espécie de culto ao disparate — em que não faltam liturgias musicadas e exorcismos encenados — que abjura qualquer lógica operativa e/ou funcional!

Por conseguinte, ou os membros do Executivo estão pírulas da cabeça e são uns infrenes maluquinhos, sendo-lhes recomendável vilegiaturas pelos belos manicómios do nosso Portugal, ou a motivações são de outra natureza; e eu não acredito que estes tenham ensandecido…

Estas circunstâncias revelam-se suspeitas e justificam o pressupor de que, por detrás de cortinas opacas, algo de muito desaconselhável está a ocorrer. Como perguntava um meu companheiro de partido: “Será este o novo caso Freeport?” Ou seja, podendo estar longe da verdade, um espectador atento não evitará reflectir acerca de eventuais trocas de favores, de dinheiro ou de ambos.

Assim, por imperativo de consciência, mas sem assumir o papel de acusador, redobro o meu estado de alerta e manifesto a minha ânsia em saber quem são, neste ensejo, os financiadores da ANA-VINCI…

João Salvador Fernandes

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