Um estudo muitíssimo incómodo que põe a nu as mentiras da cosmética

Em Saúde

Saúda-se em primeiro lugar um título marcadamente posicionado para a defesa do consumidor, domínio que se tem revelado pouco interessante (para não dizer paupérrimo) no nosso panorama editorial. As Mentiras da Cosmética, por Beatrice Mautino, Bertrand Editora, 2019, aborda uma temática que tem um peso relevante no funcional e no imaginário dos consumidores. Observo que os cosméticos são os únicos bens de consumo que não conhecem a crise nesta contemporaneidade marcada por ciclos de austeridade, não é afetada como a indústria automóvel ou das confeções. A explicação do seu sucesso permanente é simples: os cosméticos estão no eixo central daquilo que se chama o “estar bem com a nossa pele”. Não há imaginário do consumo sem apelos à aparência física, às promessas de combate ao envelhecimento, alegações próximas da eterna juventude, o manter a nossa consciência ativa de que o nosso corpo é uma espécie de vitrina, que precisa de ser permanentemente lubrificado com produtos de maquilhagem ou de higiene e limpeza. Isto para sublinhar que o mundo da cosmética oscila entre o imaginário e o real das nossas aparências.

A autora, que tem preparação científica, vem questionar como se processa a informação sobre cosméticos, como atua o marketing, qual a veracidade das alegações, desce a detalhes minuciosos sobre alarmismos, disseca modos de publicidade enganosa e detém-se longamente sobre o nosso bem-estar, escolhe como modo de observação os cabelos, os pelos, a celulite, as rugas, a pele; por fim, oferece aos consumidores uma caixa de ferramentas útil para descodificar menções publicitárias.

Toda a mensagem que diga “sem” é naturalmente atrativa, intui-se que há menos perigos, que o produto é natural ou anda próximo. E cita um alarmismo que tem feito história, os parabenos, conhecidos pela sua ação antimicrobiana. Em revoadas, têm sido acusados de muita coisa, a começar por serem indutores do cancro da mama, os parabenos estão permanentemente em processo mas a verdade é que cientificamente não há provas e nos tribunais os parabenos estão ilibados. Como escreve a autora, os investigadores não estão em condições de nos dizer que os parabenos são 100% seguros, o que demonstra é que previnem contaminações microbianas, nas dosagens utilizadas não são nocivos ou não mais nocivos do que outras substâncias. Como em muitos outros domínios da química, é a porção que faz o veneno.

Os cosméticos são sujeitos a uma legislação severa porque já fizeram mal a muita gente: já cegaram, provocaram queimaduras, tintas para o cabelo tiveram efeitos terríveis, um erro de dosagem num pó de talco matou dezenas de crianças. Um cosmético não é um fármaco, não pode ter e muito menos reivindicar propriedades terapêuticas. “Um creme hidratante para a pele é um cosmético, enquanto uma pomada antibiótica para tratar a acne é um fármaco. Também um dentífrico comum é um cosmético, sendo o champô anticaspa com cetoconazol um fármaco, visto possuir um princípio ativo destinado a tratar um problema específico do coro cabeludo”. Lembra ainda que a partir de 1997 se tornou obrigatório indicar a lista dos ingredientes em ordem decrescente. Aborda com muita argumentação a experimentação em animais, a existência dos mecanismos de avaliação da segurança de qualquer cosmético e disseca, por vezes com bastante humor, a publicidade, evidenciando os disparates que têm poder convincente junto dos consumidores: a água micelar, que não tem nada de novo, mas que aparece como uma poção mágica, desvela muito do cientifiquês, a publicidade é useira e vezeira e que a pele ou os cabelos precisam de um auxílio externo para se regenerarem. As estratégias da publicidade agrupam-se em quatro categorias: atenção à pele frágil, à perda de elasticidade, ao surgimento das rugas, este produto serve para tratar cabelos oleosos, cabelos secos, esconder as rugas ou eliminar a celulite; como a concorrência é enorme, a publicidade a um produto procura adicionar-lhe valor, não basta limpar a pele eficazmente, o nosso produto trata e alimenta e revela a sua profunda beleza; o produto publicitado é idêntico ao antigo, tem que se fazer alarve com o pretexto de que a embalagem é nova ou possui complemento especial: “Esta é a primeira base líquida encapsulada numa almofada. Impensável até ontem, hoje tornou-se indispensável”. O cientifiquês está sempre presente: “A água termal mineralizada da Vichy, nascida dos vulcões franceses, é um poderoso ingrediente ativo e natural. Pela primeira vez, os laboratórios Vichy realizaram a fórmula milagrosa que permite obter uma concentração sua de 89%, associando-a ao ácido hialurónico, de origem natural. O Minéral 89 fortalece a função barreira da pele para a tornar, com o correr dos dias, mais resistente às agressões como o stress, a poluição e a fadiga”. E na sequência, a autora dá-nos os cinco mandamentos da publicidade correta. A segunda parte da obra é dedicada ao nosso bem-estar, desmontando as mensagens de produtos milagrosos, seja para a depilação, o uso de um champô, os testes da celulite, os cremes que prometem retardar o aparecimento de rugas. Dá-nos também em apêndice um conjunto de lendas e mitos que precisam de ser desmascarados, desde os produtos hipoalérgicos aos protetores solares. As associações de consumidores e os organismos reguladores (no caso português o INFARMED) têm a incumbência de avaliar as informações da publicidade, as suas alegações, bem como fazer a análise laboratorial de toda esta parafernália de produtos.

Livro utilíssimo não só para quem utiliza mas para quem estuda a cosmetologia. Um cosmético vende sempre um sonho e a publicidade não está lá muito preocupada em motivar os consumidores para as reais funções e aplicações destes produtos – é bom que se saiba o que se deve pedir a um desodorizante, a um antitranspirante e a uma pasta de dentes. Há tanta estridência acerca dos lipossomas, cremes com anti-radicais livres, com cristais líquidos, com colagénio, a esperança de quem publicita é de que o sonho comanda a vida. Resta dizer que o sistema educativo, que já presta alguma atenção à alimentação, ignora, pura e simplesmente, a preparação de um jovem quanto a medicamentos e cosméticos, o que é deplorável.

Mário Beja Santos

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