O mais incandescente e incómodo dos grandes autores franceses atuais

Em Ribatejo Cool

Éric Vuillard foi distinguido com o Prémio Goncourt 2017 graças a uma narrativa com um conteúdo tétrico, se bem que com uma redação que simula uma alargada ata de uma reunião que ocorreu em 20 de fevereiro de 1933, em que com a maior discrição os grandes industriais alemães disponibilizaram dinheiro a rodos a Hitler, e o novo chanceler prometia a estabilidade, o fim drástico dos conflitos laborais, que a Alemanha iria renascer. Uma prosa elegante, de onde se evola o comentário cáustico, o desenho de safadezas que os truculentos nazis iriam pôr em prática: A Ordem do Dia, Publicações D. Quixote, 2018.

Temos agora A Guerra dos Pobres, Publicações D. Quixote, 2020, outra temática inquietante, as revoltas camponesas que preludiam e depois acompanham todo o fenómeno da Reforma no século XVI, que teve como expoente Thomas Muntzer. São parágrafos económicos, parece que se encontrou vocábulo insubstituível, aliás os críticos não deixam de observar que estas narrativas de Éric Vuillard cruzam estilos, há melodia poética, acentos polifónicos, a utilização certeira da investigação histórica e uma grande eloquência que promana da retórica gongórica, lê-se e percebe-se que não há omissões, todas aquelas sínteses sobre atmosferas, currículos, ambientes históricos, são totalmente percetíveis.

Antes de falar de Muntzer, o protesto camponês foi vigoroso e demolidor em Inglaterra, dois séculos antes, primeiro com John Wyclif que pôs em sobressalto os teólogos, recordando que existe uma relação direta entre o Homem e Deus, ler a Bíblia em inglês era indispensável. Mas o seu entusiasmo não se circunscrevia ao divino, além de propor que os papas fossem escolhidos por sorteio, fez questão de reivindicar que o clero passasse a viver em pobreza evangélica, o pior veio depois, repudiou a transubstanciação e, a maior das heresias, advogou a igualdade entre os homens. Roma manifestou a sua cólera. “Mais de quarenta anos volvidos sobre a sua morte, condenado pelo Concílio de Constância, exumaram o seu cadáver e queimaram-lhe os ossos. Tinham por ele um ódio tenaz”. Wyclif deixou discípulos, esses vão pôr em marcha movimentos insurrecionais, o pretexto foi um novo imposto. A Idade Média regeu-se muito pouco pela ternura, os camponeses em fúria decapitaram juízes, incendeiam-se as residências aristocráticas, toma-se conta de Londres. “Atacam o palácio de Savoy, o de maior prestígio em Inglaterra, que pertence ao duque de Lencastre, tio do rei, acusam-no de ter apoiado a criação do imposto. O duque escapa à multidão, mas o palácio é incendiado. Os móveis e as tapeçarias são arrancados, e lançados ao Tamisa, num júbilo imenso. Tudo fica em cinzas. O rei tem catorze anos; refugia-se na Torre de Londres”. Os motins prosseguem. Como será de esperar, tudo acabará num massacre, a ordem regressa depois do banho de sangue. Na Boémia, do século XIV para o século XV, temos outro agitador, Jan Hus, ao tempo três papas reivindicam o trono de Pedro, o Papa de Roma, o Papa de Pisa e o Papa de Avinhão, no meio desta balbúrdia todos discutem se Hus é herético, respondem que sim, ele atreve-se a dizer que a hóstia não se transforma em carne.

São estes os antecedentes de Muntzer, abreviadamente. Para ele a vida é a Cruz, a verdade é a Cruz, não lhe importa que as pessoas se batizem em criança ou na idade adulta, o único batismo é espiritual. Insurge-se contra o latim, vai muito mais longe que Lutero. Os seus sermões são incendiários, escreve cartas a príncipes e a duques que os põe de rastos. Os príncipes odeiam-no, ainda por cima ele vai usar uma expressão cataclísmica: É preciso matar os soberanos ímpios. Dentro deste seu estilo tão híbrido, tão Éric Vuillard, entramos no olho do furacão. “A guerra dos camponeses tinha começado na Suábia, perto do lago de Constância. Depois estendera-se ao Tirol e ao norte. Foi uma sucessão de revoltas, mas não só camponesas, urbanas também, operárias. Muntzer tinha-se dirigido aos desvalidos, e tentou por algum tempo unir a multidão dos descontentes”. É um pregador cada vez mais inflamado, ainda por cima mostra antipatia em público por Lutero. A partir de março de 1525, explodem as revoltas: no Hesse, na Alta Francónia, na Turíngia, no Harz, na Saxónia, os príncipes e os landgraves estão completamente desorientados. O duque Albrecht von Mansfeld procura a negociação, a única via para ganhar tempo e desmoralizar o adversário, organizam-se tropas, cavaleiros às centenas, milhares de infantes. E assim se chega à Batalha de Frankenhausen, aqueles camponeses esfarrapados e mal armados não podem resistir. Temos depois a lenda, como Muntzer foi decapitado? Há também a lenda da cobardia, que ele teria fugido, entregou-se a von Mansfeld, foi encerrado numa masmorra e torturado, renegando os seus propósitos, há muito diz-se e consta. O autor diz que recusa a dúvida, a traição e a abjuração, vê-o no patíbulo, e deste modo se despede do leitor:

“Irá morrer. Aos 35 anos. Torceram-lhe o corpo: os braços, as pernas. Sangra. Está quase sem forças. Então o machado ergue-se. Os rostos estão ali, às centenas, a toda a volta. Os mendigos, os curtidores, os ceifeiros, os pobres diabos olham, olham! Que veem eles? Veem um homem como eles, de corpo tolhido. Como são diminutos os homens, como são frágeis e violentos, inconstantes e severos, enérgicos e repletos de angústia. De súbito, o machado abate-se e corta o pescoço. Oh!, como são pesadas as cabeças, dois ou três quilos de osso ou de papa. A cabeça será empalada. O corpo será retirado do patíbulo e lançado aos cães. A juventude não tem fim, o segredo da nossa igualdade é imortal, a solidão, fabulosa. O martírio é uma armadilha para os oprimidos, apenas a vitória é desejável. Contá-la-ei”.

O sonho de qualquer escritor, mais do que se fazer ler, é apurar a química das palavras, bater com colher de pau os termos consagrados, atirar ao ar e colher nos braços uma morfologia renovada. Alguém escreveu que Éric Vuillard dá uma nova vida aos quadros imóveis da História. Atenção, que estes relatos são danças quase satânicas à beira de vulcões, intimidam ou, no mínimo, põem o leitor a refletir como algo de aparentemente tão banal põe o tempo em ebulição, como foi o caso das revoltas camponesas em plena Reforma. Saúda-se e que venha mais desta eloquência onde a densidade histórica é impressionante.

Mário Beja Santos

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